quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sou tão mulher #7

Eu não tenho uma explicação. Eu não sei como o conseguiria provar. Eu compreendo que pareça estranho.
Mas eu juro que há dias em que eu não tenho nada para vestir.

Há manhãs em que, ao abrir o roupeiro, constato em choque que toda a minha roupa foi trocada por peças parecidas mas em tamanhos diferentes, em tons distintos, em tecidos estranhos.

Há dias em que, por mais combinações que ensaie, por mais que regresse a modelos comprovados, por maior que seja a pilha das peças rejeitadas, eu simplesmente não tenho nada para vestir.

E podem vir tentar demonstrar, por a+b que, sim, que está ali a blusa que fez sucesso na semana passada, que aquelas calças estão praticamente por estrear e assentam bem, que sapatos pretos de salto alto nunca comprometem - blábláblá. Eu estou a ouvir. Mas o espelho está a gritar-me de volta que pareço uma linguiça metida numa mini-saia.

Há dias em que uma mulher acorda e não tem nada para vestir. É um cliché? Talvez. Mas é a verdade.

Nada assenta. Nada combina. Tudo fica demasiado curto ou apertado ou justo ou largo ou está visto que tenho que ir às compras.

É um desespero, senhores. Um desespero.

Para quem vive sozinha, como eu, são momentos difíceis de ultrapassar mas lá interiorizamos que naquele dia seremos um espantalho patético e grotesco e prosseguimos.
Feridas de morte na alma, mas prosseguimos.

Mas para quem partilha seu roupeiro, seu pedaço de céu, com espécime do género masculino, o sofrimento é incalculável.
Pobres mulheres, a vossa cruz é demasiado pesada. O meu pensamento está convosco nessas horas de desalento.

Pois qualquer mulher em frente ao enorme abismo que é um roupeiro sem nada que se vista, está apenas a uma frase de distância de dar um passo em frente.

Esta (e suas variantes) é a frase: "Como não tens nada para vestir? E o que é isso TUDO? Vá, deixa-te lá de frescuras e despacha-te. Viste as minhas chaves?"
(é minha convicção que qualquer diálogo doméstico termina sempre com um homem a perguntar pelas suas chaves/telemóvel/carteira/peúgas)
(e com uma mulher a dizer-lhe onde estão)
(seis sentidos? nem pensar! são sete - no mínimo - a contar com este sonar doméstico)

Homens que me leem, sejam pacientes nestes momentos de dor. Eles vão acontecer. As vossas mulheres precisam que as oiçam, que as confortem. Que regressem a casa com um presente.

Mulheres, estamos juntas.
A sentirmo-nos desesperadas e perdidas, mas juntas.




20 comentários:

  1. Pelo menos uma vez por semana presencio uma cena como a da primeira foto...
    Não penses que é só com as mulheres, a nós também nos acontece, o que é diferente é que demoramos menos tempo a dizer " que se foda vou mesmo assim"...

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    1. Não é fácil ser-se mulher.
      Mas é melhor :-)

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  2. Já para não falar da segunda parte do processo,ir com voçes ás compras...... :P

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    1. onde voltam as velhas frases "nada me fica bem...!", "faz-me gorda!", etc.

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    2. Eu detesto ir às compras acompanhada.
      Mas se forem fazer companhia e se vos perguntarem essas coisas, sejam sinceros mas gentis. "Pareces uma tenda de circo" não é construtivo.

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  3. Been there, done that! Solução fácil... Roupeiros diferentes para cada género da casa! :)

    E sair de casa mais cedo que ela também resolve!

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    1. Anónimo17:30

      Então é por isso que fazes sempre questão de sair antes de mim...
      T.

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    2. My love... Porque não evitar o conflito se for possível?

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    3. T, bem-vinda! :-)
      Silent, apanhadíssimo! Já escolheste o presente que vais comprar depois do trabalho?

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  4. Sabes lá o drama que é conjugar fatos, camisas e gravatas todos os dias!!! Minutos da minha vida que já ninguém mos devolve :P Ao menos hoje em dia ando como quero e não há dramas.

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    1. Mas tens de conjugar à mesma, certo? Ou passaste a trabalhar numa colónia de nudistas?

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  5. Anónimo15:13

    Homens, a MMS tem razão: a parte de chegar a casa com o presente é muito, mas mesmo muito importante! :)

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  6. Anónimo, vê este vídeo e aprende com o homem de sonho que todos sonham ser e as mulheres ter.

    https://www.youtube.com/watch?v=WEpA4sJsJZM

    Mulher, isto também é para ti.

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    1. Obrigada. Mas prefiro-os sem capachinho.

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  7. Anónimo09:26

    Não disse que tem olhos pestanudos naquele episódio do "Homem atraente?"
    Com um pestanejar a preceito quem vai reparar no que leva ou não vestido? Ou se combina com isto e aquilo, com a ocasião ou a certidão?
    Pessoalmente mulher que me dirija o favor do seu olhar, o que de menos me recordo depois, ou não recordo, de todo, é o que trazia vestido e calçado.
    Sou o tal anónimo das três horas de paraíso bocal.

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    1. Vestimo-nos (também) para nós, certo?

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    2. o anónimo17:10

      Sim! Eu sei! Essencial e unicamente para vocês.
      Toda a mulher que conhece o valor da sua beleza, quando se veste e calça a preceito, se maquilha e perfuma, trata do seu cabelo e unhas, enfim, se alinda comme il faut; não é a pensar no marido ou namorado que o faz. Esses estão muito longe das suas cogitações.
      Fá-lo para mostrar àquela presumida da amiga que tem a mania que é boa, que ela, se quiser, a arruma para fora de campo em dois tempos.
      O que eu não sei, :)

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  8. Solidária MMS, totalmente solidária par acontigo neste drama que é acordar, estar atrasada para sair, e não ter nada de jeito para vestir e calçar (sim porque sapatos tanmbém fazem a diferença, e muita!)

    É uma tortura. Devia ser possível justificar atrasos derivados de procuras desesperadas, qual caça ao tesouro dentro de um armário... quase desembocado em Narnia do terror do vestuário...

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