terça-feira, 22 de abril de 2014

São doenças, senhores. São doenças.

O Jornal i dá-nos hoje conta de uma juíza do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa que, em 2010, deixou acumular mais de oito mil processos. OITO MIL.

Mais do que discutir o estado da justiça em Portugal, os processos que entretanto prescreveram ou o desfecho do processo disciplinar a que foi sujeita esta juíza (e que resultou na atribuição de um auxiliar) (ahahahah) (não tem graça nenhuma), parece-me que importa aferir – tendo em conta que o candy crush saga ainda não existia – o que raio provocou esta acumulação.

Digo isto, influenciada pelas hordas de seguidores do jogo. A quem não basta jogá-lo: é preciso partilhá-lo nas redes sociais, exibindo o nível em que se está. E enviando convites. Muitos convites. Demasiados convites.

Falo mesmo sem conhecimento de causa. Eu nunca vi o jogo mais gordo. E nem quero. Eu tenho lá vida para andar com trabalho atrasado!

Mas dizia, será este um caso de hoarding (em português, de acumulação compulsiva)? Terá esta juíza uma patologia grave? Estaremos a ver tudo isto mal?
Para quem não sabe, esta condição psicológica resulta numa incapacidade de se desfazer de objetos colecionados.
Resulta também em vários programas no canal TLC.
(sim, também gosto de trash TV)
(nunca a expressão trash TV foi tão bem aplicada)
(momento Badaró)

Os acumuladores vivem rodeados de objetos sem qualquer utilidade, alguns até perigosos (como comida podre ou falhas no sistema judicial) e dificilmente conseguem quebrar o ciclo de acumulação, arrastando familiares e amigos para dramas domésticos com cheiro a urina de ratazana.

Já estou mesmo a ver o desfecho deste caso: tribunal cheio de câmaras de televisão, uma equipa de limpeza a escoar papel à pazada e a juíza, lavada em lágrimas, a soluçar que não se consegue desfazer do processo XYZ, que prescreveu há 3 anos e que entretanto já perdeu meia página para um galão tombado e outra meia para a maionese apodrecida de uma tosta de atum comprada em janeiro.

Pobre auxiliar.
Espero que tenha candy crush saga no telemóvel. E facebook.






segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os campeões do amor

No dia em que a ave do momento é a águia e que o amor da moda é o amor ao clube;
agora que os beijos são dados aos cachecóis, às bandeiras, a estátuas cobertas de excrementos secos e a criancinhas levantadas em cavalitas por homens maduros em lágrimas;
hoje, depois de milhares de machos de bigodes fartos terem declararado em público o seu amor eterno ao Benfica, quero trazer-vos uma perspetiva diferente dos afetos.

Desde que mudei de casa, e comecei a viver num ambiente mais urbano, que fiquei alerta para este movimento amoroso. Já o tinha registado, aqui e ali, numa esplanada, num jardim, num passeio pelo Chiado.

Mas - condicionada pelos rótulos comuns e depreciativos - admito que demorei a reconhecer devidamente a natureza poética e sensível destas criaturas afetuosas. Destes corações apaixonados. Destes D. Juans alados.

Dos pombos.

Chamam-lhes ratos com asas. Eu digo que são cupidos com bicos.

Seja Primavera (e ande tudo num frenesim erótico), seja Inverno (e metade da vida animal esteja na toca a tiritar de frio), os pombos macho querem sempre praticar o amor.

O pombo macho é um resiliente. Ele persegue a (sua) fêmea, arrulhando apaixonadamente. Dando voltas sobre si próprio. Tufando as suas penas. Arrulhando novamente. Rodando para o outro lado.

Persegue-a de coração no bico. Todo ele emoção. Seguro que a conseguirá convencer que nenhum ovo sairá tão viçoso como o que ele pode ajudar a produzir. Nenhuma ninhada estará completa sem a sua masculinidade envolvida. Ele e a sua semente são tudo o que ela precisa e deseja. E com esta certeza a persegue, cheio de boas/más intenções. Todo tufado.

“Queres f*der? Queres f*oder? Olha p’ra mim a rodar! Viste? Viste? Olha agora a rodar para o outro lado! Não sou espetacular? E viste como fico enorme? Diz lá, a sério, não sou o maior que já viste? Queres f*der? Queres f*der?”

Vocês não ouvem esta a conversa enquanto o jogo de sedução dos pombos decorre? Eu oiço. É isto que eles dizem. Tenho a certeza.

Mas apesar da retórica e das penas e do bailado, na maioria dos casos, a fêmea parece mais interessada em comer uma beata do que em ceder aos instintos predatórios deste Doutor do Amor. As fêmeas ignoram os avanços como quem passa por um mendigo andrajoso e o pombo macho resiste bem mais do que acharíamos possível. Ele mantém o ritual apesar do desprezo e isso toca-me o coração.

No entanto, sejamos claros: são amorosos mas são devassos. Ao contrário dos seus primos pinguins, que acasalam para a vida, os pombos (cujo objetivo é acasalar TODA a vida), apesar dos peitinhos cheios de emoção, são capazes de lançar charme com igual intensidade à fêmea A e depois à B e depois à C e assim por diante, até nZ. Amam-nas muito e querem-nas tanto, mas confrontados com o óbvio, viram a sua baioneta do amor para a miúda (pomba) do lado.

Eu acho que não sem um golpe de tristeza. Mas isto sou eu, que no fundo sou uma romântica.

Neste dia de águias de peito cheio, prestemos pois a nossa homenagem a esta ave sensível que pouco mais deseja do que pôr a tocar um Barry White, baixar as luzes, servir um copo de vinho e passar todo um serão a namorar. Sem grelhas de táxis na testa.

Papoilas urbanas de corações saltitantes.
Pinga-amores dos parapeitos.
Os pombos.
Os pombos.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

E façam uma amêndoa feliz

Diz que é fim-de-semana XL.
Aproveitem para namorar, para estar em família, para passear, para fazer exercício, para apanhar Sol, para não apanhar (muita) chuva, para comer o que gostam, para ir ao cinema, para ver uma série toda de seguida, para fazer uma declaração de amor, para mandar alguém à merda - para serem felizes.

E depois repitam no Sábado e no Domingo.

Boa Páscoa!


  






quinta-feira, 17 de abril de 2014

Crónica de uma morte anunciada

Morreu Gabriel García Marquez

 
O vazio, irrecuperável, só poderá ser preenchido com as suas palavras, com os enredos, com o génio.
 
Há pessoas que são eternas.
 
"Para mim é suficiente ter a certeza que tu e eu existimos neste momento"
 
 

Segredo*

Tenho uma obsessão com a organização em casa.

O meu roupeiro e os meus sapatos estão organizados por cores. Os meus livros por géneros e por títulos. Todas as embalagens têm o rótulo virado para a frente.

É frequente voltar atrás - mesmo que esteja atrasada - porque vi, pelo canto do olho, qualquer coisa fora do lugar.

Já se riram (muito) de mim, e eu já me ri de volta, mas ninguém compreende o que eu sofro com isto.

Estou a tentar mudar.


* Desafio do Shiuuuu, de que falei ontem aqui

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Segredos nas ondas

O Shiuuuu é um projeto interessante. É um blogue que divulga segredos de forma anónima.

Segredos mais ou menos intensos.
Alguns que apenas nos fazem corar. Outros, que se alguém descobrisse, nos fariam emigrar.

São os próprios a enviar os segredos.
Uma forma simples de pseudo-terapia, para quem partilha e para quem lê.
Faz-nos sentir menos sozinhos nas nossas loucuras.

Está a decorrer até amanhã um desafio para quem tem um blogue. Para quem não conhece o projeto, pode entrar aqui.

Esta (vossa) Mulher Mesmo de Sonho tem os seus segredos. E enviou um.
Se a publicação for aprovada, conto com a vossa solidariedade.
Sabem que ao meu baralho já vão faltando algumas cartas...

Aguardemos então. Com tranquilidade.



E enquanto o fazemos, deixo-vos com a música que não consigo largar há dois dias. A versão que tenho ouvido na rádio é outra, mas é esta que me enche o coração.


I'm stuck here in between
I'm looking for the right words to say

Sonho com ditadores de risco ao meio

Esta noite sonhei que estava a voar.
Nada de especial. É o sonho que tenho com maior frequência.
E o que mais gosto de ter.

Desloco-me no ar como se estivesse a nadar. Empurro o ar como se fosse água.
É uma sensação bestial.

Esta noite andava a voar por cima da Irlanda. Ali mesmo onde a terra encontra o mar.
Cores fantásticas. Uma paisagem de cortar a respiração.
Estava feliz.

A dada altura parei em cima da água.
Um cardume de pequenos peixes começou a girar à minha volta. No ar.
Maravilhoso.
Estava mesmo feliz.

Não durou.

Num ápice estava sentada na beira de um arranha-céus. Nos Estados Unidos.
E logo a seguir numa sala, cheia de gente tensa.
Onde também estava este tipo.


Sim, eu sonhei que estava feliz a voar, que tinha um cardume a envolver-me no ar, e que deixei toda esta magia para marcar presença numa reunião com Kim Jong-un.
O general líder da Correia do Norte. Filho do Querido Líder. Neto do Grande Líder. O Grande Sucessor.

Esta figura simpática que mandou executar o tio, servindo-o - vivo - como refeição a 120 cães que não comiam há cinco dias.

Não era o primeiro na linha de sucessão mas diz que os dois irmãos não estariam à altura.

O mais velho foi apanhado há uns anos a tentar entrar no Japão, com um passaporte falso. Disse na fronteira que queria ir visitar a Disneyland, em Tóquio. De facto, quem gosta do Pateta dificilmente vibrará com paradas militares e bombas e tortura e isso.

O outro, o do meio, aparentemente foi considerado “demasiado feminino” para assegurar a sucessão. Portanto se és homem e pões creme nos cotovelos, esquece lá a candidatura a ditador.
Este grande fofo, diz que foi visto há uns anos, em Singapura, num concerto do Eric Clapton. Se fosse da Cher teríamos a confirmação. Assim, ficamos a pensar que o coitado é apenas metrossexual.

Portando, dizia, estávamos todos tensos na sala. Eu, o pequeno facínora e um batalhão de americanos.
Às tantas alguém disse qualquer coisa que ofendeu alguém (não sei o quê, nem quem) (que isto da matéria dos sonhos é demasiado frágil) (e confuso) (às vezes, como a realidade) (mas divago) e sai-me o norte-coreano pigmeu de rompão.

E aí eu percebi que os Estados Unidos iam entrar em guerra com a China.
E acordei, alarmada.
“Mas ó Mulher Mesmo de Sonho, com a China? Então não seria com a Coreia do Norte?”
“Pschiu, calem-se, e temam o poderio militar que ameaça a civilização ocidental.”






Definitivamente, preciso de me deitar mais cedo.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Qual é coisa, qual é ela...

...que atirada à cabeça, ainda aleija?

Se era para me fazer sentir jurássica adulta, bastava lembrarem-me que na adolescência as paredes do meu quarto eram forradas a Tom Cruise, Michael J. Fox e Mel Gibson.

Que andei - orgulhosa - de telemóvel Alcatel. E antes disso, de cartões de telefone. Para usar nas cabines. Só quando não estava em casa, com o meu telefone fixo. Mesmo fixo, na sala.

Que sonhava ter umas calças de ganga da Uniform. E um casaco de penas da Duffy. E uma mochila Monte Campo.

Que ouvia a Rádio Cidade, que era animada por brasileiros. Numa altura em que o António Sala ainda tinha bigode. E a amiga Olga não parecia que tinha passado por um túnel de vento.

Que na escola se falava de telenovelas. De telenovela. Porque só havia uma de cada vez e todos a víamos. Havia cadernetas de cromos e tudo.

Que as televisões (ou os televisores) tinham uma bossa atrás. E uma antena, que manuseávamos com pinças, para garantir que não havia um fantasma verde por cima do Pedro Mourinho, no Caderno Diário.

Quando todos tínhamos um cartão do clube de vídeo. E um rebobinador.

Se era para me fazer sentir madura nostálgica, não havia necessidade disto.


Monstrozinhos.
Era já uma colher de óleo de fígado de bacalhau pela goela abaixo.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Dia Internacional do quê?

É hoje e ainda vão a tempo.

Porque há erros que são de evitar.


Quem é amiga, quem é?
 
 

Se não podes visitar os romanos, come gelados

O fim-de-semana é um espaço de tempo cuja perceção da sua passagem decorre em inversa razão das coisas que planeámos fazer. Ou do Sol que estiver.
Se temos muito para fazer e/ou se está Sol, passa em três horas.
Se, pelo contrário, estamos miseráveis em casa porque está a chover e ninguém quer passear de mão dada connosco, demora três semanas.

Portanto, eis algumas das coisas que não fiz e que fiz nestes dois dias.

O que não fiz

Não consegui visitar as Galerias Romanas da baixa de Lisboa.
Eu tentei. Eu levantei-me praticamente de madrugada no Sábado, mentalizada para uma fila de, vá, uma hora. Uma e meia, num pico de loucura.
Mas quando lá cheguei havia gente da Rua da Conceição (onde fica a entrada) até quase ao Rossio. E eu para passar todo um dia em pé numa fila, não obrigada.
Se tiverem interesse, mantenham-se atentos. Em princípio deverão abrir novamente em setembro.

Isto é parte do que podem encontrar


Mudei de casa há pouco mais de 4 meses. Já o tinha dito aqui, aqui e aqui.
Como bem sabe quem já mudou de casa, há sempre mil coisas para tratar.
Acudimos primeiro ao mais prioritário, como ter água para não se cheirar mal, gás para não correr o risco de quinar nu no duche num golpe de hipotermia e eletricidade para não acabar com um lenho da testa por encontro fortuito com uma esquina de porta.
Mas depois há o resto: arrumações, decoração, pequenos arranjos. Um buraco sem fundo.
Devia ter aproveitado o fim-de-semana para pendurar quadros e candeeiros e instalar umas prateleiras. Comprei o material, sim senhor. Mas depois achei que boa ideia, realmente, era adiar mais uma semaninha. E assim fiz.



O que fiz

Comprei um micro-ondas novo.
O meu já acusava o passar dos anos e estava sempre a dizer-me que o que queria mesmo era fazer uma excursão às termas ou ir jogar à bisca para o jardim. Fiz-lhe a vontade (hoje de manhã seguiu para o Norte no expresso das sete e meia, com um grupo de pequenos eletrodomésticos já amarelados).
O que eu não previ é que, agora que tinha afinado o tempo preciso das pipocas do Pingo Doce (ao segundo), teria que recomeçar tudo e sacrificar um ou dois pacotes em nome do snack perfeito.
Adeus, meu velho (suspiro).



Fui ao Continente. Não gosto de ir a hipermercados.
Não gosto dos lunáticos dos carrinhos que nos lixam os calcanhares enquanto deslizam pelo corredor dos enlatados.
Não gosto das crianças que fazem birra em frente às gomas.
Não gosto do corredor dos chocolates que sempre que lá passo me suga para o seu campo gravitacional e me obriga a meter quatro tabletes de chocolate negro no cesto.
Não gosto de ver iogurtes misturados com lixivia no tapete da caixa (as minhas compras vão sempre separadas, por géneros).
Não gosto dos sacos de plástico que agora parece que são feitos de ar. Duas garrafas de água e uma lata de atum e tenho metade do saco rasgado.
Mas teve que ser e lá me resignei e resisti aos chocolates.
Trouxe uma embalagem de donuts.
(de chocolate)



Comi um hambúrguer maravilhoso na Hamburgueria do Bairro.
Os hambúrgueres são muito bem servidos, há imensas variedades e é possível retirar ou acrescentar ingredientes. Para quem não come carne, como eu, há quatro opções vegetarianas. Quatro! E todas deliciosas.
As batatas fritas podem ser as tradicionais ou de batata doce. Peço sempre a opção de batata doce e é de lamber os dedos (mas não o façam porque é feio) (se estiverem em casa, menos mal) (sim, há opção de entrega ao domicílio).
Já conhecia o restaurante do Restelo mas desta vez fui ao de São Bento e adorei. O atendimento foi rápido e muito simpático e o espaço está acolhedor. Para repetir.
Se quiserem mais informações ou saber onde há outros restaurantes, podem ver no site deles, aqui.



Comi um gelado fantástico, na Nannarella. Uma gelataria artesanal também na zona de São Bento.
Há os sabores mais tradicionais e depois há outros, maravilhosos, como gelado de figo. Fiiiiiiiiiiigo!
Quando fui, fazia-se fila na rua. Tipo Galerias Romanas mas em menos tempo e com um resultado mais doce.
Os gulosos podem visitar o Facebook deles, aqui.



E portanto, agora que penso nisso, o que eu fiz foi sobretudo tratar da minha alimentação.
Ou arranjar instrumentos para a preparar.
Ou ceder monumentalmente à gula.

Faz sentido.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Entregues à bicharada

Eu gosto de animais. Gosto de quase todos os animais.
Pelos, penas, escamas - marcha tudo. Para o meu coração.

Não gosto de baratas.
As baratas não são animais.
As baratas são as filhas de Satanás.

Tenho uma amiga que foi à China e comeu barata frita.
Quando me contou quis esbofeteá-la e a seguir vomitar-lhe em jato para a cara.
Só me saiu, num sopro desmaiado, "Mas porquê...?". Ao que ela respondeu “Então, porque estava lá!”.
(nota mental: nunca a levar à ETAR de Alcântara à hora do lanche)

Quando me sair o Euromilhões já tenho tudo planeado. Já o disse aqui.

Um dos primeiros projetos é comprar metade do Alentejo, mandar pôr uma cerca à volta e enchê-lo de bichos. Ainda não sei como vou acomodar as baleias, mas provisoriamente podem ficar na piscina municipal.

Vão ter o amor e cuidado que muitos nunca tiveram, e ser entregues apenas a quem provar merecê-los.

Se eu mandasse, abandonar e maltratar animais seria crime. Punido com vergastadas.
Nos genitais.
Para sempre.

As penas mais leves poderiam ser cumpridas em casa: uma vez por semana um agente da autoridade deslocava-se à residência do criminoso e aplicava a pena.
Não era bom?

Como hoje é sexta-feira e eu dormi pouco e não há nada que me faça sorrir como me fazem sorrir os animais, tenham paciência, mas hoje isto é deles.

Vamos lá.

Para quem já teve ou tem gato: sosseguem, não é só o vosso que tem problemas mentais.



Eh pá, sim, eu sou uma lama lover. Mas ir buscar um snack ao frigorífico com uma ovelha-agigantada pela trela, talvez não.



Eu já vi coisas estranhas. Mas isto está bem posicionado para ocupar um lugar no pódio.
Se eu fosse o cavalo, depois disto ia direta para a esquadra apresentar queixa por estupro.

E depois tomava três duches.


E agora animais fofinhos que claramente, num dado momento da vida, bateram com a cabeça numa trave.


 
 


 

 
Apesar de tudo, ainda há quem os ame.
(demasiado?)


 


Errr...
 

Tratem bem os vossos todos os animais e tenham um excelente fim-de-semana!
É uma ordem.
(são duas)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

E se um desconhecido...

...te oferecer flores a meio da tarde, isso é...


...tão bom!


Sou tão mulher #6

Como tinha dito aqui, na terça-feira foi dia de revisão do carro.

Como é carro da empresa, e o tipo da marca tem bom gosto, vai ter comigo ao emprego de manhã. Pega na viatura, entrega na oficina, vai buscar à oficina e devolve-mo ao final do dia. Lavado e aspirado.

Impecável, certo?
Errado.

É que o meu carro é armazém de tudo o que possam imaginar e mais um par de botas. E quando digo “mais um par de botas” não achem que é uma força de expressão. Não. Elas estão mesmo lá.

Em casa sou um general da arrumação. No carro, preciso de alugar, e encher, um contentor de entulho para o poder apresentar a outros seres humanos.

No meu carro vive de tudo. Sou a Santa Casa da Tralha e sou um coração mole: se vierem por bem, podem vir. E ficar. Dois anos.

Todos os dias são dias a seguir a um Festival de Verão. Ou a uma manifestação. Há garrafas vazias, garrafas cheias, lenços de papel, areia, sacos, revistas (do Verão anterior), blocos de notas, canetas que não escrevem, canetas que escrevem depois de riscarmos uma folha, canetas que nunca escreveram, talões de parquímetro, moedas (mas nunca suficientes para o parquímetro), pacotes de bolachas, embalagens de pastilhas (vazias), brochuras de publicidade, mapas, uma moeda de plástico para o carrinho do supermercado, sapatos (e mais um par de botas), roupa para a lavandaria, roupa para a costureira, roupa para se estiver frio à noite, o saco do ginásio, a trituradora que avariou e é preciso levar à Worten, dois guarda-chuvas, uma pala prateada para tapar o vidro quando está Sol (nunca uso), um bidão para ir buscar gasóleo se ficar apeada (nunca usei), líquido para os vidros e produto para limpar as jantes (já usei!), uma lanterna, um pano com cara de quem andou na guerra das Coreias e desta vez até óculos para ver filmes em 3D encontrei. Dois pares.

Já me disseram que tudo isto é elevado à décima quando se tem filhos.
Medo.

Eu não sei que raio de fenómeno estranho se passa das portas do meu carro para dentro, mas é como se eu não quisesse saber. Naquele espaço eu sou um adolescente que atira com a roupa para qualquer sítio. Sou uma rebelde. Sou uma desarrumada.

Não é a primeira vez que, ao regressar da oficina, reencontro maquilhagem e ganchos de cabelo há muito perdidos. Deixados no cinzeiro, a brilhar, pelos dedos trémulos com unhas castanhas dos pobres diabos que o acabaram de lavar e aspirar.

Imagino sempre que há uma força de intervenção. Da mesma forma como eu preciso de despejar o carro de véspera (libertando os roedores e separando o lixo) (não no ecoponto, mas em “lixo para deitar fora” e “lixo para voltar a pôr no porta-bagagens”), na oficina deve haver uma reunião de preparação. Há um briefing com fotografias do carro noutras ocasiões, táticas de ataque, pontos de entrada, discussões acesas em que alguém diz “eu acho que não estou preparado” e alguém responde “foi para isto que trabalhaste toda a vida, acredita em ti”, e no fim, ao som de música patriótica, o chefe da oficina faz um discurso inspirador e saem, em grupo, a dar palmadas nas costas uns dos outros, convencidos que conseguirão livrar os meus tapetes de todos os cabelos, migalhas e folhas secas.

Ah. A inocência.

Claro está que mais uma vez o carro chegou impecável. Quase não o reconhecia porque na minha memória vive um carro cinzento mas na verdade ele é preto + pó.

E por dentro? Um brinco! Mas mesmo. Pensava que tinha perdido este brinco para sempre, num outro sítio qualquer, mas aparentemente, antes de sucumbir de exaustão, o tipo que se ofereceu para esta missão de combate à passagem de uma mulher por aquele habitáculo, localizou a peça e deixou-a no banco do passageiro, como recordação da sua passagem por aquele cenário de guerra.

Pequenos e anónimos heróis.

Portanto, o ritual agora é este: repetir coméquépossível acumular tanta tralha e enganar-me, dizendo que irei lavar e aspirar o carro regularmente. E daqui a quinze dias está tudo igual.

Em casa, uma princesa.
No carro, um troll.