segunda-feira, 14 de abril de 2014

Se não podes visitar os romanos, come gelados

O fim-de-semana é um espaço de tempo cuja perceção da sua passagem decorre em inversa razão das coisas que planeámos fazer. Ou do Sol que estiver.
Se temos muito para fazer e/ou se está Sol, passa em três horas.
Se, pelo contrário, estamos miseráveis em casa porque está a chover e ninguém quer passear de mão dada connosco, demora três semanas.

Portanto, eis algumas das coisas que não fiz e que fiz nestes dois dias.

O que não fiz

Não consegui visitar as Galerias Romanas da baixa de Lisboa.
Eu tentei. Eu levantei-me praticamente de madrugada no Sábado, mentalizada para uma fila de, vá, uma hora. Uma e meia, num pico de loucura.
Mas quando lá cheguei havia gente da Rua da Conceição (onde fica a entrada) até quase ao Rossio. E eu para passar todo um dia em pé numa fila, não obrigada.
Se tiverem interesse, mantenham-se atentos. Em princípio deverão abrir novamente em setembro.

Isto é parte do que podem encontrar


Mudei de casa há pouco mais de 4 meses. Já o tinha dito aqui, aqui e aqui.
Como bem sabe quem já mudou de casa, há sempre mil coisas para tratar.
Acudimos primeiro ao mais prioritário, como ter água para não se cheirar mal, gás para não correr o risco de quinar nu no duche num golpe de hipotermia e eletricidade para não acabar com um lenho da testa por encontro fortuito com uma esquina de porta.
Mas depois há o resto: arrumações, decoração, pequenos arranjos. Um buraco sem fundo.
Devia ter aproveitado o fim-de-semana para pendurar quadros e candeeiros e instalar umas prateleiras. Comprei o material, sim senhor. Mas depois achei que boa ideia, realmente, era adiar mais uma semaninha. E assim fiz.



O que fiz

Comprei um micro-ondas novo.
O meu já acusava o passar dos anos e estava sempre a dizer-me que o que queria mesmo era fazer uma excursão às termas ou ir jogar à bisca para o jardim. Fiz-lhe a vontade (hoje de manhã seguiu para o Norte no expresso das sete e meia, com um grupo de pequenos eletrodomésticos já amarelados).
O que eu não previ é que, agora que tinha afinado o tempo preciso das pipocas do Pingo Doce (ao segundo), teria que recomeçar tudo e sacrificar um ou dois pacotes em nome do snack perfeito.
Adeus, meu velho (suspiro).



Fui ao Continente. Não gosto de ir a hipermercados.
Não gosto dos lunáticos dos carrinhos que nos lixam os calcanhares enquanto deslizam pelo corredor dos enlatados.
Não gosto das crianças que fazem birra em frente às gomas.
Não gosto do corredor dos chocolates que sempre que lá passo me suga para o seu campo gravitacional e me obriga a meter quatro tabletes de chocolate negro no cesto.
Não gosto de ver iogurtes misturados com lixivia no tapete da caixa (as minhas compras vão sempre separadas, por géneros).
Não gosto dos sacos de plástico que agora parece que são feitos de ar. Duas garrafas de água e uma lata de atum e tenho metade do saco rasgado.
Mas teve que ser e lá me resignei e resisti aos chocolates.
Trouxe uma embalagem de donuts.
(de chocolate)



Comi um hambúrguer maravilhoso na Hamburgueria do Bairro.
Os hambúrgueres são muito bem servidos, há imensas variedades e é possível retirar ou acrescentar ingredientes. Para quem não come carne, como eu, há quatro opções vegetarianas. Quatro! E todas deliciosas.
As batatas fritas podem ser as tradicionais ou de batata doce. Peço sempre a opção de batata doce e é de lamber os dedos (mas não o façam porque é feio) (se estiverem em casa, menos mal) (sim, há opção de entrega ao domicílio).
Já conhecia o restaurante do Restelo mas desta vez fui ao de São Bento e adorei. O atendimento foi rápido e muito simpático e o espaço está acolhedor. Para repetir.
Se quiserem mais informações ou saber onde há outros restaurantes, podem ver no site deles, aqui.



Comi um gelado fantástico, na Nannarella. Uma gelataria artesanal também na zona de São Bento.
Há os sabores mais tradicionais e depois há outros, maravilhosos, como gelado de figo. Fiiiiiiiiiiigo!
Quando fui, fazia-se fila na rua. Tipo Galerias Romanas mas em menos tempo e com um resultado mais doce.
Os gulosos podem visitar o Facebook deles, aqui.



E portanto, agora que penso nisso, o que eu fiz foi sobretudo tratar da minha alimentação.
Ou arranjar instrumentos para a preparar.
Ou ceder monumentalmente à gula.

Faz sentido.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Entregues à bicharada

Eu gosto de animais. Gosto de quase todos os animais.
Pelos, penas, escamas - marcha tudo. Para o meu coração.

Não gosto de baratas.
As baratas não são animais.
As baratas são as filhas de Satanás.

Tenho uma amiga que foi à China e comeu barata frita.
Quando me contou quis esbofeteá-la e a seguir vomitar-lhe em jato para a cara.
Só me saiu, num sopro desmaiado, "Mas porquê...?". Ao que ela respondeu “Então, porque estava lá!”.
(nota mental: nunca a levar à ETAR de Alcântara à hora do lanche)

Quando me sair o Euromilhões já tenho tudo planeado. Já o disse aqui.

Um dos primeiros projetos é comprar metade do Alentejo, mandar pôr uma cerca à volta e enchê-lo de bichos. Ainda não sei como vou acomodar as baleias, mas provisoriamente podem ficar na piscina municipal.

Vão ter o amor e cuidado que muitos nunca tiveram, e ser entregues apenas a quem provar merecê-los.

Se eu mandasse, abandonar e maltratar animais seria crime. Punido com vergastadas.
Nos genitais.
Para sempre.

As penas mais leves poderiam ser cumpridas em casa: uma vez por semana um agente da autoridade deslocava-se à residência do criminoso e aplicava a pena.
Não era bom?

Como hoje é sexta-feira e eu dormi pouco e não há nada que me faça sorrir como me fazem sorrir os animais, tenham paciência, mas hoje isto é deles.

Vamos lá.

Para quem já teve ou tem gato: sosseguem, não é só o vosso que tem problemas mentais.



Eh pá, sim, eu sou uma lama lover. Mas ir buscar um snack ao frigorífico com uma ovelha-agigantada pela trela, talvez não.



Eu já vi coisas estranhas. Mas isto está bem posicionado para ocupar um lugar no pódio.
Se eu fosse o cavalo, depois disto ia direta para a esquadra apresentar queixa por estupro.

E depois tomava três duches.


E agora animais fofinhos que claramente, num dado momento da vida, bateram com a cabeça numa trave.


 
 


 

 
Apesar de tudo, ainda há quem os ame.
(demasiado?)


 


Errr...
 

Tratem bem os vossos todos os animais e tenham um excelente fim-de-semana!
É uma ordem.
(são duas)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

E se um desconhecido...

...te oferecer flores a meio da tarde, isso é...


...tão bom!


Sou tão mulher #6

Como tinha dito aqui, na terça-feira foi dia de revisão do carro.

Como é carro da empresa, e o tipo da marca tem bom gosto, vai ter comigo ao emprego de manhã. Pega na viatura, entrega na oficina, vai buscar à oficina e devolve-mo ao final do dia. Lavado e aspirado.

Impecável, certo?
Errado.

É que o meu carro é armazém de tudo o que possam imaginar e mais um par de botas. E quando digo “mais um par de botas” não achem que é uma força de expressão. Não. Elas estão mesmo lá.

Em casa sou um general da arrumação. No carro, preciso de alugar, e encher, um contentor de entulho para o poder apresentar a outros seres humanos.

No meu carro vive de tudo. Sou a Santa Casa da Tralha e sou um coração mole: se vierem por bem, podem vir. E ficar. Dois anos.

Todos os dias são dias a seguir a um Festival de Verão. Ou a uma manifestação. Há garrafas vazias, garrafas cheias, lenços de papel, areia, sacos, revistas (do Verão anterior), blocos de notas, canetas que não escrevem, canetas que escrevem depois de riscarmos uma folha, canetas que nunca escreveram, talões de parquímetro, moedas (mas nunca suficientes para o parquímetro), pacotes de bolachas, embalagens de pastilhas (vazias), brochuras de publicidade, mapas, uma moeda de plástico para o carrinho do supermercado, sapatos (e mais um par de botas), roupa para a lavandaria, roupa para a costureira, roupa para se estiver frio à noite, o saco do ginásio, a trituradora que avariou e é preciso levar à Worten, dois guarda-chuvas, uma pala prateada para tapar o vidro quando está Sol (nunca uso), um bidão para ir buscar gasóleo se ficar apeada (nunca usei), líquido para os vidros e produto para limpar as jantes (já usei!), uma lanterna, um pano com cara de quem andou na guerra das Coreias e desta vez até óculos para ver filmes em 3D encontrei. Dois pares.

Já me disseram que tudo isto é elevado à décima quando se tem filhos.
Medo.

Eu não sei que raio de fenómeno estranho se passa das portas do meu carro para dentro, mas é como se eu não quisesse saber. Naquele espaço eu sou um adolescente que atira com a roupa para qualquer sítio. Sou uma rebelde. Sou uma desarrumada.

Não é a primeira vez que, ao regressar da oficina, reencontro maquilhagem e ganchos de cabelo há muito perdidos. Deixados no cinzeiro, a brilhar, pelos dedos trémulos com unhas castanhas dos pobres diabos que o acabaram de lavar e aspirar.

Imagino sempre que há uma força de intervenção. Da mesma forma como eu preciso de despejar o carro de véspera (libertando os roedores e separando o lixo) (não no ecoponto, mas em “lixo para deitar fora” e “lixo para voltar a pôr no porta-bagagens”), na oficina deve haver uma reunião de preparação. Há um briefing com fotografias do carro noutras ocasiões, táticas de ataque, pontos de entrada, discussões acesas em que alguém diz “eu acho que não estou preparado” e alguém responde “foi para isto que trabalhaste toda a vida, acredita em ti”, e no fim, ao som de música patriótica, o chefe da oficina faz um discurso inspirador e saem, em grupo, a dar palmadas nas costas uns dos outros, convencidos que conseguirão livrar os meus tapetes de todos os cabelos, migalhas e folhas secas.

Ah. A inocência.

Claro está que mais uma vez o carro chegou impecável. Quase não o reconhecia porque na minha memória vive um carro cinzento mas na verdade ele é preto + pó.

E por dentro? Um brinco! Mas mesmo. Pensava que tinha perdido este brinco para sempre, num outro sítio qualquer, mas aparentemente, antes de sucumbir de exaustão, o tipo que se ofereceu para esta missão de combate à passagem de uma mulher por aquele habitáculo, localizou a peça e deixou-a no banco do passageiro, como recordação da sua passagem por aquele cenário de guerra.

Pequenos e anónimos heróis.

Portanto, o ritual agora é este: repetir coméquépossível acumular tanta tralha e enganar-me, dizendo que irei lavar e aspirar o carro regularmente. E daqui a quinze dias está tudo igual.

Em casa, uma princesa.
No carro, um troll.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Porque às vezes, menos é mais

Ontem foi um dia de subtrações.

Bebi um sumo detox de espinafres, pepino, kiwi, gengibre e várias sementes. Daqueles que fazem as nossas entranhas sentirem-se com quinze anos: imaturas e rebeldes. Menos um pão de leite nas minhas artérias.

Entreguei o IRS. Acho que nunca o tinha entregue tão cedo. Está feito. Menos uma coisa para tratar.

O carro foi à revisão. E quando regressou, quase não o reconhecia, sem a espessa camada de pó com que normalmente se apresenta. Menos uma coisa pendente.

Paniquei durante os dois minutos em que o meu gato de cinco quilos fixou os olhos numa mosca pousada no cortinado do quarto. Por momentos achei que o fim estava perto. A mosca fugiu. Menos uma coisa para arranjar em casa.

Corri 6 kms. Na passadeira. À noite. Em casa. Estava a precisar. Menos uma noite de insónia.

Levei o lixo à rua, depois da corrida e antes do banho. Senti o bafo quente da primeira noite de calor. Menos um dia para o (meu amado) Verão.

Recebi um postal de uma amiga que está a viver do outro lado do mundo. Regressa em agosto. Menos um pedaço de coração fora do peito.



Ele é o tal

Se eu tivesse um calendário de parede e uma caneta de feltro encarnada da molin, eu estaria a riscar os dias que passam. E estaria a fazê-lo até ao dia 24 de abril.

Esse dia estaria assinalado com uma bola à volta dos números, um smile ou uma imagem de um sapo.

Porquê? Porque no dia 24 estreia em Portugal o filme que serei menina para ir ver ao cinema mais do que uma vez, todo o tempo a rir de boca aberta e de olhos brilhantes. No dia 24 estreia este filme.

Muppets Most Wanted, na versão original

Gosto dos marretas, sim senhor. Mas nem é por isso.

Não sei como dizê-lo, sem o dizer. A verdade é que eu sou uma groupie do Ricky Gervais. Desde o The Office (versão original, inglesa), série da qual é co-criador e estrela maior, que este homem se me entranhou no cérebro. Fact.


E quando eu digo que sou uma groupie, vocês pensam “Ah e tal, vê os programas e os filmes”. Sim, vejo. E compro-os. Tenho todos - todas as séries e todos os filmes. Tudo importado porque não aguento estar à espera. Mas se fosse só isso…

Saibam os estimados leitores que esta Mulher de Sonho já atravessou o Canal da Mancha para assistir a um stand-up do Ricky Gervais. E como em Londres estava tudo esgotado, meteu-se numa cidade litoral meio esquecida, com absolutamente nada para se fazer no Inverno (e era Inverno), condenada a um hotel de gosto duvidoso onde se aproveitava apenas o silêncio (não havia mais hóspedes), apenas para conseguir sentar-se na primeira fila. Sim, viajei de avião e de comboio(s) e de comboio(s) e de avião para poder assistir ao stand-up deste tipo. E valeu cada euro e cada minuto.

“Ah e tal, Inglaterra é já ali, em duas horas está-se em Londres”. Ai sim? Ai é isso? E se vos disser que já atravessei um oceano para assistir a uma participação do Ricky Gervais no NY Comedy Festival? Hã? Agora já percebem, certo? Deixem que explique: não aconteceu eu ter a viagem marcada e aproveitar para dar um salto ao evento. Não. Eu vi que se ia realizar o evento, comprei os bilhetes para o evento e só depois tratei de organizar a viagem. É este o nível de obsessão.

Digamos que se o Ricky deixasse crescer a franja e a penteasse para o lado, se se metesse na droga e andasse a fazer corridas de carros no meio da rua, e se um dia viesse cantar a Portugal com voz de quem ainda não passou a puberdade, eu era a primeira a espetar com o saco-cama na entrada do Pavilhão Atlântico. E eu nem tenho saco-cama. Mas ia! (não ia nada) (arranjava um passe VIP e gritava histérica todos os três segundos em que o conseguisse ver a passar a menos de dez metros de mim)

Dêem-me o Euromilhões e eu juro que janto com ele. Não sei que manobra terei que arquitetar mas o homem janta comigo e nem precisa de contar piadas. Desde que leve o Constantine.

O Constantine é o maior criminoso mundial. O Number One (no filme - tal como na vida - também há um Number Two) (ihihihih). No filme, este criminoso, quase igual ao Cocas, decide roubar um diamante (um clássico) mas no meio do seu plano maléfico envolve-se com a malta dos Marretas. Ora peguem lá o trailer.

 
Viram o desfile de atores? Tina Fey, Ty Burrell, Christoph Waltz, Zach Galifianakis, Tom Hiddleston, Stanley Tucci, Salma Hayek. Até o P. Diddy e a Lady Gaga lá foram fazer uma perninha. Caramba. Terão perdido o meu contacto…?

Enquanto dia 24  não nunca mais chega vou suspirando por não saber usar pernas de pau virtuais que me ajudem a piratear a internet. “Ah e tal, piratear é crime”. E este meu sofrimento é o quê?!

Ainda por cima é amigo dos bichinhos.
Caramba.
 
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Os contrariadores

Não entendo as pessoas que teimam em contrariar quem gostam.

Tenho uma tia que é assim. Quando, em miúda, ia para casa dela, fazia questão de me apresentar cereais muesli logo pela manhã. De me servir refeições consecutivas de iscas (pausa para vómito psicológico). De me propor lanches de toranja.

Eu era uma criança (às vezes ainda sou) e não queria nada daquilo. Eu queria era coisas que fizessem as minhas papilas gustativas dar mortais à retaguarda.

Eu não tinha dois anos. Ali não era a minha casa. Não era preciso haver as mesmas regras.

E não estou a dizer que me deveria ter enchido de gomas e de chapéus de chuva de chocolate (a menos que quisesse que eu a amasse incondicionalmente). Mas no mínimo, intervalar coisas boas que sabiam mal, com coisas más que sabiam bem.

O que conseguia esta minha tia castradora era ter em casa uma sobrinha sempre de ouvido espetado para o telefone. De cada vez que tocava, só queria que fosse a minha mãe. A dizer que estava à porta, montada num cavalo branco alado que nos levasse a comer esparguete à bolonhesa.

Não entendia por que razão parecia estar a ser castigada. Mas comia e calava e olhava para o relógio a contar os minutos de masmorra que ainda me restavam.

Assim que tive idade para que me deixassem ter opinião, nunca mais lá fiz uma refeição. Chá, no máximo e ainda assim nunca caí no erro de lhe dizer qual preferia (nunca mais o bebia). Passei a visitar e a fugir o mais depressa que conseguisse. Nunca fiando, não fosse o mundo cá fora acabar e eu ficar bunkerizada naquela casa, com metade dos produtos do Celeiro.

Algumas pessoas têm uma atitude semelhante com a pessoa de quem gostam.

Se sabem que o outro gosta disto ou daquilo, evitam dar ou fazer isto ou aquilo.
Se o outro lhes diz que gostaria de ter mais isto ou mais aquilo, ignoram a importância do isto ou do aquilo.
Quando o outro lhes diz, “então, bom dia e um queijo, porque está ali outra pessoa com duas sacas disto e daquilo”, desesperaram e descabelam-se.

Não entendia e continuo sem entender.

Eu sou sempre pela comunicação. Pelo diálogo.
Se algo não está bem, ou se está a mais ou a menos, é dizer-se.
Se algo é dito e repetido, talvez esteja na altura de se lhe dar importância.

Por que razão se pode presumir que privar alguém de algo que o faz feliz, é cativante? Por que raio se quereria fazê-lo? Estas formas de pequeno poder, de presumido ascendente sobre a felicidade de alguém, fazem-me espécie.

Temos encaixe para contrariedades. Podemos achar graça a um coice pontual. Mas alguém quererá viver muito tempo com um contrariador?


Quando as palavras não chegam, haverá caminho?


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Têm-nos e estão lisinhos!

Uma agência de publicidade convenceu vinte homens a serem depilados.
Com cera.
Nos testículos.

Enquanto eram filmados.

O objetivo é alertar para o cancro testicular e a importância desta zona ser regularmente examinada.

Apalpem-se, criaturas! Estejam atentos. O cancro testicular é o cancro mais comum em homens dos 15 aos 29 anos (curiosamente, só nos homens...).

Não chorem: não é preciso depilar nada. Vejam o que fazer e o que procurar neste artigo e tratem lá disso (não encontrei informação em português que me inspirasse confiança) (momentos giros, os da pesquisa em torno da palavra "testicular").

Façam o que fizerem, não caiam na tentação de ver este vídeo. Vão enrodilhar a cara, cruzar as pernas e sofrer com uma dor solidária. Não é real. É só um enorme dói-dói psicológico, 'tá bem? Vá, deixem lá isso e vão ver o resultado da bola.

Senhoras, é pena ser só um minuto e dez. Sexo forte? Ah Ah! Jamais! (ler em francês).



Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos. Mulher de Sonho, guardadora de...

Eu sou, de longe, a pessoa mais estranha que conheço.
(E fascinante)
(E bela)
(E estranha)

Na sexta-feira saí do meu gabinete para ir à casa-de-banho. Levava comigo uns documentos para entregar (ficava em caminho), o telemóvel e o batom (foi depois do almoço, ia retocar).

Desfilei corredor fora, entreguei os documentos, fui à casa de banho.
Quando acabei de lavar as mãos, olhei para a bancada e nada. Só lá estava o telemóvel. O batom, nem vê-lo.

Regressei ao compartimento individual (não sei que raio de nome dar aquela coisa - mas é a casinha dentro da casinha). Nada.
Apalpei-me toda (primeiro para ver se o tinha nos bolsos, depois porque me entusiasmei) (ainda soltei um “és tão boa”) (ninguém ouviu). Nada.

E então segui para onde tinha entregue os documentos.
“Deixei aqui um batom?” (que merda ter que assumir que os meus lábios não são naturalmente rosados e brilhantes) (são, mas é mais de manhã) (shiu, calem-se!).
“Não, aqui não ficou nada...”
“Veja lá aí junto aos documentos.”
“Não, nada.”

A soltar impropérios metade do caminho, regressei ao gabinete.
Ando a dormir mal e se calhar nem cheguei a levar o batom. Devia estar na secretária, a fazer pouco de mim.

Não estava. Caramba. Perdi um batom na semana passada. Este desapareceu num percurso mínimo. Não é possível!

Voltei em fúria à casa-de-banho. (detesto perder coisas)
Olho para o bidé, olho para trás do bidé, olho para o autoclismo, espreito para trás do autoclismo. Mas nada. E nem tinha ideia de o ter pousado.

Ai que é desta que me fico.
A saúde mental já anda por um fio.
Queres ver que agora perco espaços de tempo? Ai ai ai.
Nunca mais como um donut de chocolate recheado de chocolate que o colesterol já me chegou às curvas do cérebro.
Já tenho a cabeça toda apanhada. Ai ai ai.

Desanimada, mas conformada, regressei ao gabinete.
Entrei, dei a volta à secretária e sentei-me.
E então percebi onde estava o c*brãozinho.

Mulher de Sonho, enojada com a perspetiva de pousar seu batom em sanitário alheio, resolveu, no decorrer da sua micção, guardá-lo no forro da tanga.

Sim, meus amigos, acreditem que o digo carregada de vergonha. Mas é a verdade: eu tornei-me numa guardadora de batons em forro de tangas.
As senhoras, presumo que saibam do que estou a falar. Para os senhores: o forro é uma espécie de bolso interior, que algumas peças de lingerie feminina apresentam, na zona em que são reforçadas.

E não só sou guardadora de batons em forro de tangas, como o sou a precisar de Memofant para a veia. Porque fiz o impensável e a seguir apaguei-o da memória. Se alguém teria razão para estar com sintomas de stress pós-traumático não era eu. Era o batom. Ou a tanga.

Só ao sentar-me, minutos mais tarde, é que a embalagem anatomicamente correta - mas de tamanho absurdamente inadequado -, deu sinal da sua presença, alertando-me assim - e agora a vocês - que isto está de facto muitíssimo perto do fim.

Caramba.



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Sou tão mulher #5

Ainda estou para perceber de que sacrista de tear facial sou eu feita para me transformar numa faneca acabada de pescar de cada vez que ponho rímel.

Fico ali, em frente ao espelho, escova nas pestanas e boquinha aberta, com uma cara de surpresa como que a dizer “Oh! Rímel!!”.

Já vi outras mulheres a aplicar rímel. Ficamos todas surpreendidas de cada vez que aplicamos este tipo de maquilhagem.
Sabemos que a temos, gastamos tempo e dinheiro a escolher marcas, ou o produto que transforme pestanas de gente em pestanas de girafa, ou o que não saia nem que nos tentem afogar durante 3 horas numa sanita cheia de lixivia, e ainda assim, quando o vamos aplicar é sempre uma surpresa. “Oh! Rímel!!”.

O mesmo sucede com a busca (incessante) por pelos de sobrancelhas tresmalhados. Vocês sabem. Aqueles que nascem gordos e vigorosos, entre a pálpebra e a sobrancelha e que só descobrimos depois de uma tarde ao Sol com o rapaz por quem nos estamos a apaixonar. Nós derretidas, a achar que ele nos olhava intensamente por estar cheio de ardor e desejo. E o pobre diabo a tentar perceber se aquilo era mesmo um pelo ou se nos nasceu o bigode do Poirot numa vista.

Alarmadas com a possibilidade de tudo ter caído por terra, vamo-nos a eles com afiadas pinças (que até já têm lanterna) (sim, meus senhores, as mulheres executam práticas de tortura capilar semelhantes às que se nega existirem em Guantanamo) (foco de luz em cima dos poros e agora mostrem lá do que são feitos). E quando nos aproximamos do espelho, pimba, boca aberta. “Oh, pelos!!”

Se no entusiasmo da caça perdemos a cabeça e nos atiramos aos pelos do nariz, aí sim, é que os sentimentos se intensificam.
TPM, anúncios de bebés bochechudos, vídeos de gatinhos, venham eles. Mas ponham-me uma pinça no nariz e saquem-me um pelo, e é ver esta Mulher de Sonho a chorar copiosamente.
Raios lasers apontados ao pipi? Venham eles! Um puxão mal dado numa das narinas e só me acalmam passada meia hora.

Em caso de necessidade, cedo aprendi que a ordem certa, é: 1) sacar pelo do nariz e 2) aplicar rímel.
Esta ordem é invertível, se for Carnaval e eu estiver a preparar-me para sair de casa vestida de Pierrot.



 


quinta-feira, 3 de abril de 2014

A arca das vaidades

Ontem fui ver a ante-estreia do filme Noé.
Noah, no original, trailer aqui.

Adoro ir a ante-estreias.
Detesto ir a ante-estreias.

Adoro porque me agrada a oportunidade de ver filmes antecipadamente. Como se uns dias fizessem toda a diferença. Como se regressasse do futuro.

Um pequeno poder é distribuído à saída da sala: se nos passarem à frente na fila do café, se não nos deixarem entrar primeiro no elevador ou se nos olharem uns graus mais de lado, vomitamos o filme todo e lá se vai a vossa experiência.

Não aplicável ao filme de ontem, claro. Que, com mais ou menos conhecimento da Bíblia, todos temos a ideia que o Noé não andou a construir uma marquise na casa de praia da Quarteira, com o objetivo de juntar peúgas aos pares, e assim evitar o flagelo da meia única que, com cara triste, nos olha do alguidar quando a tiramos da máquina de lavar. Molhada, enrugada e órfã.

Ainda assim, posso dizer-vos que esta versão é algo livre, com apontamentos hollywoodescos.

Quando achei que a minha penitência, por não ter comido em miúda a sopa até ao fim, tinha terminado nos últimos acordes com que o Russel Crowe me violentou os tímpanos no Les Miserables, estava enganada. Regressou toda a fruta que andei a esconder pela casa da minha avó, quando lá ficava nos Verões da infância e juntas procurávamos reduzir os litros de vitamina C que a minha mãezinha me queria enfiar goela abaixo - via quantidades diárias industriais de clementinas. Enfiando citrinos alaranjados em tudo o que era estante de livros ou gaveta de roupa interior, para evitar a horrenda provação, estou em crer que ainda hoje vive algures uma laranja-passa, enrugada pelo correr dos anos e triste de solidão, frustrada por não ter sido comida, como seria sua missão de vida. E por isso fui castigada.

Como? Saibam os cinéfilos leitores que Mr. Crowe arranjou forma de fazer cantar o seu Noé. Ou melhor, de fazer “cantar” o seu Noé. Não vão sem aviso. Arrisquem os que conseguirem. Passa depressa mas deixa marcas.

Entretanto, já disse que detesto ir a ante-estreias?

Detesto. Os pavões, os cata-ventos e as pseudo-famosas. A festa do croquete que precede a emissão da película é uma passarela de clichés rosa-choque.

Estavam lá todos. As atrizes que são sempre protagonistas, as atrizes que são sempre empregadas domésticas, os atores-modelo com os seus metroenoventa de altura e crânios XS, as loiras manequins com pernas até às orelhas, as tias Purezas e Xaxão, de cara esticada até à parte de trás do pescoço, os tios metidos em calças jeans encarnadas compradas na Loja das Meias e a chamarem-se diminutivos ridículos, seguidos de apelidos com pelo menos uma consoante repetida. Os mais distintos, com hifenes. Mas todos falidos e mortos de fome.

É como uma estância balnear caída em desgraça onde, em vez de pessoas normais, se passeiam criaturas girassol que giram conforme se mexem os flashes, caras castanhas engelhadas por anos de praia do Ancão e outras anormalmente bonitas mas profundamente ocas.

Não aprecio o constante avaliar de valor humano pelo número de vezes em que a legenda com o nome, na cobertura deste tipo de eventos - na página 50 da Caras - não estava incorreta. Coisas cá minhas.

Um ângulo curioso neste filme é o piscar de olhos à comunidade vegetariana e animalista em geral. O objetivo de Deus com a construção da arca, dito e repetido durante toda a história, é salvar os inocentes: os animais. Noé e a família condenam a caça e não comem animais (ficou por apurar se ingeriam bagas goji, sementes de linhaça e spirulina).

Os espetadores mais católicos devem preparar-se para um Noé mais negro - Velho Testamento à séria. Um gladiador bíblico, no fundo. O amor e a compaixão são para os animais. As pessoas que se f*dam.

E f*oderam!
(vá lá, não estraguei nada o fim!) (toda a gente já sabia, certo...?)


quarta-feira, 2 de abril de 2014

The fi(a)nal frontier

Quantos milhares de homens já deram por si à janela da cozinha, numa noite de lua cheia, a suspirar por um ânus apertado por onde fazer passar a sua masculinidade?

Quantos, desde o início dos tempos, terão regateado, chantageado e chegado a impor a sua vontade, face ao desejado evento do sexo anal?

Numa mudança de posição, confrontados com a oportunidade (aparentemente) certa, quantos terão tentado fazer(-se) deslizar para diferentes paragens, apenas para serem violentamente acordados na linha da meta, por um estridente “Oi, mas aonde é que tu vais? Não é aí!”?

Por que será que tantos homens anseiam por (um) cu?

Sendo mulher, e por isso mera observadora desta vontade gulosa, suspeito que seja uma combinação de fatores.

A questão anatómica - por ser um canal mais estreito - terá o seu contributo. Mas se fosse só isso, a humanidade já teria acrescentado ao sexo vaginal, oral e anal, o sexo nasal.

E era ver, mundo fora, mulheres de rua com as narinas deformadas e cheias de estrias. Mulheres jovens a pedir envergonhadamente às esteticistas pistas de aterragem ou, em ocasiões especiais, narizes completamente depilados. Mulheres cansadas a usar com frequência o argumento “Hoje não. Estou com sinusite.” E as resolvidas a comprar tampões vibratórios que os seus homens lhes inseririam no nariz durante o sexo. Para as mais devassas, haveria modelos de entrada dupla.

Filmes eróticos de sucesso incluiriam êxitos estrondosos como “Nariz Fundo” ou “O Império do Olfato”. No mais recente do Lars Von Trier, “Ninfomaníaca”, seriamos brindados com uma cena de 15 minutos entre a protagonista e duas embalagens de Nasex Nebulizador. O Pinóquio seria exibido em sessões contínuas no Cine Paraíso.

Portanto, o aperto conta, mas não será tudo.

A submissão - ou, antes, a ilusão da submissão -, pela posição que habitualmente se associa a este tipo de sexo, poderá ser outro fator. O macho gosta de controlo. Está no seu código genético. O domínio da situação pode funcionar como um elemento de excitação, ainda que não em absoluto.

Há muitos homens que procuram na cama exatamente o oposto. Homens com poder que querem ser subjugados por mazonas vestidas de preto e armadas até aos dentes com chibatas, velas e botas pontiagudas. Nem um pingo de misericórdia naqueles corpos cobertos de cabedal - e eles adoram.

Controlar a situação pode contribuir para este popular anseio masculino mas será apenas isso?

Quebrar barreiras. Explorar novos territórios. Enfrentar criaturas mitológicas com uma espada de carne. Espetar bandeiras de sémen onde uma pequena penetração pode ser pequena para um homem, mas gigante para uma mulher.

Serão na verdade os nossos homens uns nostálgicos? Procurarão eles nos nossos traseiros, as infâncias perdidas? As histórias de heróis e de bandidos? O fascínio das missões espaciais? Quererão eles ser exploradores marítimos, embarcados em naus com nádegas, expostos ao escorbuto e a canais retais mal lavados, com o objetivo apaixonado de descobrir terras paradisíacas? Será isso?

Talvez seja tão-somente esta combinação de fatores mais um outro decisivo: é uma janela de oportunidade que surge em quantidades mais reduzidas. É um bem mais escasso. É um pote de ouro no final de um arco-íris. É algo que muitas mulheres só proporcionam a quem verdadeiramente amam. Haverá muitas que o fazem por genuíno prazer - não duvido. Sei que há. Conheço uma ou duas. Mas arriscaria dizer que a maioria o faz pelos seus homens. Pelo brilho no olhar. Pela alegria inocente. Pelo sorriso genuíno.

E porque a seguir lhes podem pedir que levem o lixo, sequem a loiça e lhes aspirem o carro. E eles lá vão. E felizes.

Caros leitores do género masculino, se tiverem respostas para nós, é chegarem-se à frente.
Vão ver que não dói nada.

 
 
 
 
 
 

terça-feira, 1 de abril de 2014

I'm not bad. I'm just drawn that way.

Tiveram uma boa segunda-feira, tiveram? Espero que sim. No mínimo, estou segura de que terá sido melhor do que a minha, já que esta vossa Mulher de Sonho (es)teve (n)uma exótica experiência ao nível do oculto.

Possessão. Foi o que me sucedeu na madrugada de domingo para segunda. Fui possuída. Por um dragão. Desorientado. Estão a ver o fogo que sai da boca dos dragões? O dragão que me ocupou a carcaça, estava claramente desorientado. Se é que me faço entender.

Sentada aos comandos da minha poltrona de loiça, comandei as operações de exorcismo deste violento monstro toda a madrugada e boa parte do dia de ontem.

Quem manda cozinhar com (demasiado) piri-piri…?

Se o jantar de Domingo estava bom? Estava. Mas não precisava de o rever passadas tão poucas horas.



Numa nota mais positiva, tenho a dizer-vos que estou aqui a reluzir de vaidade.

No domingo fui fazer a Corrida do Benfica e apesar de não treinar desde o Verão e de andar há meses a encher o bandulho de porcarias (deliciosas), fiz a corrida toda.

Sozinha, deixada à mercê da chuvada bíblica que decorreu durante quase toda a prova, encharcada até aos ossos, a correr em zigue-zagues para evitar as poças (que não evitei) (quando cheguei ao carro tirei as meias e caiu de lá um cardume) (de atuns), consegui superar o meu melhor tempo. Fiquei verdadeiramente satisfeita!

E a experiência não acabou na meta. Na zona VIP o ambiente era excelente. Sim, porque estava abrigado e sim, porque havia caras simpáticas, mas o que realmente fez a diferença foi a pastelaria. Pastéis de nata, bolinhos secos, empadas, croissants. Tudo em miniatura. Metade do tamanho, dobro do prazer.

Sou uma senhora, mas não me tentem com pastelaria anã. Adoro comida de brincar.

 

Estou pronta para regressar. Correr é um vício. E dos bons.
Se me apresentarem pastelaria no final, sou menina para daqui a uns tempos estar numa maratona.

A minha motivação? Ser fabulosa como a Jessica Rabbit, comer despreocupadamente, mas evitar chegar a isto.


Ó Jessica, filha, calças os ténis e vem daí.
Já sabemos que te desenharam assim, mas tens que reagir.
Caramba.