Ontem foi um dia de subtrações.
Bebi um sumo detox de espinafres, pepino, kiwi, gengibre e várias sementes. Daqueles que fazem as nossas entranhas sentirem-se com quinze anos: imaturas e rebeldes. Menos um pão de leite nas minhas artérias.
Entreguei o IRS. Acho que nunca o tinha entregue tão cedo. Está feito. Menos uma coisa para tratar.
O carro foi à revisão. E quando regressou, quase não o reconhecia, sem a espessa camada de pó com que normalmente se apresenta. Menos uma coisa pendente.
Paniquei durante os dois minutos em que o meu gato de cinco quilos fixou os olhos numa mosca pousada no cortinado do quarto. Por momentos achei que o fim estava perto. A mosca fugiu. Menos uma coisa para arranjar em casa.
Corri 6 kms. Na passadeira. À noite. Em casa. Estava a precisar. Menos uma noite de insónia.
Levei o lixo à rua, depois da corrida e antes do banho. Senti o bafo quente da primeira noite de calor. Menos um dia para o (meu amado) Verão.
Recebi um postal de uma amiga que está a viver do outro lado do mundo. Regressa em agosto. Menos um pedaço de coração fora do peito.
Inteligente, bonita, bem humorada, culta, aventureira, amiga, afetuosa, desinibida. Se não fosse ter mau feitio e nenhum talento para conversa de circunstância, dir-se-ia que sou uma Mulher de Sonho. Mesmo.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Ele é o tal
Se eu tivesse um calendário de parede e uma caneta de feltro encarnada da molin, eu estaria a riscar os dias que passam. E estaria a fazê-lo até ao dia 24 de abril.
Esse dia estaria assinalado com uma bola à volta dos números, um smile ou uma imagem de um sapo.
Porquê? Porque no dia 24 estreia em Portugal o filme que serei menina para ir ver ao cinema mais do que uma vez, todo o tempo a rir de boca aberta e de olhos brilhantes. No dia 24 estreia este filme.
Gosto dos marretas, sim senhor. Mas nem é por isso.
Não sei como dizê-lo, sem o dizer. A verdade é que eu sou uma groupie do Ricky Gervais. Desde o The Office (versão original, inglesa), série da qual é co-criador e estrela maior, que este homem se me entranhou no cérebro. Fact.
E quando eu digo que sou uma groupie, vocês pensam “Ah e tal, vê os programas e os filmes”. Sim, vejo. E compro-os. Tenho todos - todas as séries e todos os filmes. Tudo importado porque não aguento estar à espera. Mas se fosse só isso…
Saibam os estimados leitores que esta Mulher de Sonho já atravessou o Canal da Mancha para assistir a um stand-up do Ricky Gervais. E como em Londres estava tudo esgotado, meteu-se numa cidade litoral meio esquecida, com absolutamente nada para se fazer no Inverno (e era Inverno), condenada a um hotel de gosto duvidoso onde se aproveitava apenas o silêncio (não havia mais hóspedes), apenas para conseguir sentar-se na primeira fila. Sim, viajei de avião e de comboio(s) e de comboio(s) e de avião para poder assistir ao stand-up deste tipo. E valeu cada euro e cada minuto.
“Ah e tal, Inglaterra é já ali, em duas horas está-se em Londres”. Ai sim? Ai é isso? E se vos disser que já atravessei um oceano para assistir a uma participação do Ricky Gervais no NY Comedy Festival? Hã? Agora já percebem, certo? Deixem que explique: não aconteceu eu ter a viagem marcada e aproveitar para dar um salto ao evento. Não. Eu vi que se ia realizar o evento, comprei os bilhetes para o evento e só depois tratei de organizar a viagem. É este o nível de obsessão.
Digamos que se o Ricky deixasse crescer a franja e a penteasse para o lado, se se metesse na droga e andasse a fazer corridas de carros no meio da rua, e se um dia viesse cantar a Portugal com voz de quem ainda não passou a puberdade, eu era a primeira a espetar com o saco-cama na entrada do Pavilhão Atlântico. E eu nem tenho saco-cama. Mas ia! (não ia nada) (arranjava um passe VIP e gritava histérica todos os três segundos em que o conseguisse ver a passar a menos de dez metros de mim)
Dêem-me o Euromilhões e eu juro que janto com ele. Não sei que manobra terei que arquitetar mas o homem janta comigo e nem precisa de contar piadas. Desde que leve o Constantine.
O Constantine é o maior criminoso mundial. O Number One (no filme - tal como na vida - também há um Number Two) (ihihihih). No filme, este criminoso, quase igual ao Cocas, decide roubar um diamante (um clássico) mas no meio do seu plano maléfico envolve-se com a malta dos Marretas. Ora peguem lá o trailer.
Viram o desfile de atores? Tina Fey, Ty Burrell, Christoph Waltz, Zach Galifianakis, Tom Hiddleston, Stanley Tucci, Salma Hayek. Até o P. Diddy e a Lady Gaga lá foram fazer uma perninha. Caramba. Terão perdido o meu contacto…?
Enquanto dia 24não nunca mais chega vou suspirando por não saber usar pernas de pau virtuais que me ajudem a piratear a internet. “Ah e tal, piratear é crime”. E este meu sofrimento é o quê?!
Esse dia estaria assinalado com uma bola à volta dos números, um smile ou uma imagem de um sapo.
Porquê? Porque no dia 24 estreia em Portugal o filme que serei menina para ir ver ao cinema mais do que uma vez, todo o tempo a rir de boca aberta e de olhos brilhantes. No dia 24 estreia este filme.
Muppets Most Wanted, na versão original
Gosto dos marretas, sim senhor. Mas nem é por isso.
Não sei como dizê-lo, sem o dizer. A verdade é que eu sou uma groupie do Ricky Gervais. Desde o The Office (versão original, inglesa), série da qual é co-criador e estrela maior, que este homem se me entranhou no cérebro. Fact.
Saibam os estimados leitores que esta Mulher de Sonho já atravessou o Canal da Mancha para assistir a um stand-up do Ricky Gervais. E como em Londres estava tudo esgotado, meteu-se numa cidade litoral meio esquecida, com absolutamente nada para se fazer no Inverno (e era Inverno), condenada a um hotel de gosto duvidoso onde se aproveitava apenas o silêncio (não havia mais hóspedes), apenas para conseguir sentar-se na primeira fila. Sim, viajei de avião e de comboio(s) e de comboio(s) e de avião para poder assistir ao stand-up deste tipo. E valeu cada euro e cada minuto.
“Ah e tal, Inglaterra é já ali, em duas horas está-se em Londres”. Ai sim? Ai é isso? E se vos disser que já atravessei um oceano para assistir a uma participação do Ricky Gervais no NY Comedy Festival? Hã? Agora já percebem, certo? Deixem que explique: não aconteceu eu ter a viagem marcada e aproveitar para dar um salto ao evento. Não. Eu vi que se ia realizar o evento, comprei os bilhetes para o evento e só depois tratei de organizar a viagem. É este o nível de obsessão.
Digamos que se o Ricky deixasse crescer a franja e a penteasse para o lado, se se metesse na droga e andasse a fazer corridas de carros no meio da rua, e se um dia viesse cantar a Portugal com voz de quem ainda não passou a puberdade, eu era a primeira a espetar com o saco-cama na entrada do Pavilhão Atlântico. E eu nem tenho saco-cama. Mas ia! (não ia nada) (arranjava um passe VIP e gritava histérica todos os três segundos em que o conseguisse ver a passar a menos de dez metros de mim)
Dêem-me o Euromilhões e eu juro que janto com ele. Não sei que manobra terei que arquitetar mas o homem janta comigo e nem precisa de contar piadas. Desde que leve o Constantine.
O Constantine é o maior criminoso mundial. O Number One (no filme - tal como na vida - também há um Number Two) (ihihihih). No filme, este criminoso, quase igual ao Cocas, decide roubar um diamante (um clássico) mas no meio do seu plano maléfico envolve-se com a malta dos Marretas. Ora peguem lá o trailer.
Enquanto dia 24
Ainda por cima é amigo dos bichinhos.
Caramba.
terça-feira, 8 de abril de 2014
Os contrariadores
Não entendo as pessoas que teimam em contrariar quem gostam.
Tenho uma tia que é assim. Quando, em miúda, ia para casa dela, fazia questão de me apresentar cereais muesli logo pela manhã. De me servir refeições consecutivas de iscas (pausa para vómito psicológico). De me propor lanches de toranja.
Eu era uma criança (às vezes ainda sou) e não queria nada daquilo. Eu queria era coisas que fizessem as minhas papilas gustativas dar mortais à retaguarda.
Eu não tinha dois anos. Ali não era a minha casa. Não era preciso haver as mesmas regras.
E não estou a dizer que me deveria ter enchido de gomas e de chapéus de chuva de chocolate (a menos que quisesse que eu a amasse incondicionalmente). Mas no mínimo, intervalar coisas boas que sabiam mal, com coisas más que sabiam bem.
O que conseguia esta minha tia castradora era ter em casa uma sobrinha sempre de ouvido espetado para o telefone. De cada vez que tocava, só queria que fosse a minha mãe. A dizer que estava à porta, montada num cavalo branco alado que nos levasse a comer esparguete à bolonhesa.
Não entendia por que razão parecia estar a ser castigada. Mas comia e calava e olhava para o relógio a contar os minutos de masmorra que ainda me restavam.
Assim que tive idade para que me deixassem ter opinião, nunca mais lá fiz uma refeição. Chá, no máximo e ainda assim nunca caí no erro de lhe dizer qual preferia (nunca mais o bebia). Passei a visitar e a fugir o mais depressa que conseguisse. Nunca fiando, não fosse o mundo cá fora acabar e eu ficar bunkerizada naquela casa, com metade dos produtos do Celeiro.
Algumas pessoas têm uma atitude semelhante com a pessoa de quem gostam.
Se sabem que o outro gosta disto ou daquilo, evitam dar ou fazer isto ou aquilo.
Se o outro lhes diz que gostaria de ter mais isto ou mais aquilo, ignoram a importância do isto ou do aquilo.
Quando o outro lhes diz, “então, bom dia e um queijo, porque está ali outra pessoa com duas sacas disto e daquilo”, desesperaram e descabelam-se.
Não entendia e continuo sem entender.
Eu sou sempre pela comunicação. Pelo diálogo.
Se algo não está bem, ou se está a mais ou a menos, é dizer-se.
Se algo é dito e repetido, talvez esteja na altura de se lhe dar importância.
Por que razão se pode presumir que privar alguém de algo que o faz feliz, é cativante? Por que raio se quereria fazê-lo? Estas formas de pequeno poder, de presumido ascendente sobre a felicidade de alguém, fazem-me espécie.
Temos encaixe para contrariedades. Podemos achar graça a um coice pontual. Mas alguém quererá viver muito tempo com um contrariador?
Tenho uma tia que é assim. Quando, em miúda, ia para casa dela, fazia questão de me apresentar cereais muesli logo pela manhã. De me servir refeições consecutivas de iscas (pausa para vómito psicológico). De me propor lanches de toranja.
Eu era uma criança (às vezes ainda sou) e não queria nada daquilo. Eu queria era coisas que fizessem as minhas papilas gustativas dar mortais à retaguarda.
Eu não tinha dois anos. Ali não era a minha casa. Não era preciso haver as mesmas regras.
E não estou a dizer que me deveria ter enchido de gomas e de chapéus de chuva de chocolate (a menos que quisesse que eu a amasse incondicionalmente). Mas no mínimo, intervalar coisas boas que sabiam mal, com coisas más que sabiam bem.
O que conseguia esta minha tia castradora era ter em casa uma sobrinha sempre de ouvido espetado para o telefone. De cada vez que tocava, só queria que fosse a minha mãe. A dizer que estava à porta, montada num cavalo branco alado que nos levasse a comer esparguete à bolonhesa.
Não entendia por que razão parecia estar a ser castigada. Mas comia e calava e olhava para o relógio a contar os minutos de masmorra que ainda me restavam.
Assim que tive idade para que me deixassem ter opinião, nunca mais lá fiz uma refeição. Chá, no máximo e ainda assim nunca caí no erro de lhe dizer qual preferia (nunca mais o bebia). Passei a visitar e a fugir o mais depressa que conseguisse. Nunca fiando, não fosse o mundo cá fora acabar e eu ficar bunkerizada naquela casa, com metade dos produtos do Celeiro.
Algumas pessoas têm uma atitude semelhante com a pessoa de quem gostam.
Se sabem que o outro gosta disto ou daquilo, evitam dar ou fazer isto ou aquilo.
Se o outro lhes diz que gostaria de ter mais isto ou mais aquilo, ignoram a importância do isto ou do aquilo.
Quando o outro lhes diz, “então, bom dia e um queijo, porque está ali outra pessoa com duas sacas disto e daquilo”, desesperaram e descabelam-se.
Não entendia e continuo sem entender.
Eu sou sempre pela comunicação. Pelo diálogo.
Se algo não está bem, ou se está a mais ou a menos, é dizer-se.
Se algo é dito e repetido, talvez esteja na altura de se lhe dar importância.
Por que razão se pode presumir que privar alguém de algo que o faz feliz, é cativante? Por que raio se quereria fazê-lo? Estas formas de pequeno poder, de presumido ascendente sobre a felicidade de alguém, fazem-me espécie.
Temos encaixe para contrariedades. Podemos achar graça a um coice pontual. Mas alguém quererá viver muito tempo com um contrariador?
Quando as palavras não chegam, haverá caminho?
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Têm-nos e estão lisinhos!
Uma agência de publicidade convenceu vinte homens a serem depilados.
Com cera.
Nos testículos.
Enquanto eram filmados.
O objetivo é alertar para o cancro testicular e a importância desta zona ser regularmente examinada.
Apalpem-se, criaturas! Estejam atentos. O cancro testicular é o cancro mais comum em homens dos 15 aos 29 anos (curiosamente, só nos homens...).
Não chorem: não é preciso depilar nada. Vejam o que fazer e o que procurar neste artigo e tratem lá disso (não encontrei informação em português que me inspirasse confiança) (momentos giros, os da pesquisa em torno da palavra "testicular").
Façam o que fizerem, não caiam na tentação de ver este vídeo. Vão enrodilhar a cara, cruzar as pernas e sofrer com uma dor solidária. Não é real. É só um enorme dói-dói psicológico, 'tá bem? Vá, deixem lá isso e vão ver o resultado da bola.
Senhoras, é pena ser só um minuto e dez. Sexo forte? Ah Ah! Jamais! (ler em francês).
Com cera.
Nos testículos.
Enquanto eram filmados.
O objetivo é alertar para o cancro testicular e a importância desta zona ser regularmente examinada.
Apalpem-se, criaturas! Estejam atentos. O cancro testicular é o cancro mais comum em homens dos 15 aos 29 anos (curiosamente, só nos homens...).
Não chorem: não é preciso depilar nada. Vejam o que fazer e o que procurar neste artigo e tratem lá disso (não encontrei informação em português que me inspirasse confiança) (momentos giros, os da pesquisa em torno da palavra "testicular").
Façam o que fizerem, não caiam na tentação de ver este vídeo. Vão enrodilhar a cara, cruzar as pernas e sofrer com uma dor solidária. Não é real. É só um enorme dói-dói psicológico, 'tá bem? Vá, deixem lá isso e vão ver o resultado da bola.
Senhoras, é pena ser só um minuto e dez. Sexo forte? Ah Ah! Jamais! (ler em francês).
Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos. Mulher de Sonho, guardadora de...
Eu sou, de longe, a pessoa mais estranha que conheço.
(E fascinante)
(E bela)
(E estranha)
Na sexta-feira saí do meu gabinete para ir à casa-de-banho. Levava comigo uns documentos para entregar (ficava em caminho), o telemóvel e o batom (foi depois do almoço, ia retocar).
Desfilei corredor fora, entreguei os documentos, fui à casa de banho.
Quando acabei de lavar as mãos, olhei para a bancada e nada. Só lá estava o telemóvel. O batom, nem vê-lo.
Regressei ao compartimento individual (não sei que raio de nome dar aquela coisa - mas é a casinha dentro da casinha). Nada.
Apalpei-me toda (primeiro para ver se o tinha nos bolsos, depois porque me entusiasmei) (ainda soltei um “és tão boa”) (ninguém ouviu). Nada.
E então segui para onde tinha entregue os documentos.
“Deixei aqui um batom?” (que merda ter que assumir que os meus lábios não são naturalmente rosados e brilhantes) (são, mas é mais de manhã) (shiu, calem-se!).
“Não, aqui não ficou nada...”
“Veja lá aí junto aos documentos.”
“Não, nada.”
A soltar impropérios metade do caminho, regressei ao gabinete.
Ando a dormir mal e se calhar nem cheguei a levar o batom. Devia estar na secretária, a fazer pouco de mim.
Não estava. Caramba. Perdi um batom na semana passada. Este desapareceu num percurso mínimo. Não é possível!
Voltei em fúria à casa-de-banho. (detesto perder coisas)
Olho para o bidé, olho para trás do bidé, olho para o autoclismo, espreito para trás do autoclismo. Mas nada. E nem tinha ideia de o ter pousado.
Ai que é desta que me fico.
A saúde mental já anda por um fio.
Queres ver que agora perco espaços de tempo? Ai ai ai.
Nunca mais como um donut de chocolate recheado de chocolate que o colesterol já me chegou às curvas do cérebro.
Já tenho a cabeça toda apanhada. Ai ai ai.
Desanimada, mas conformada, regressei ao gabinete.
Entrei, dei a volta à secretária e sentei-me.
E então percebi onde estava o c*brãozinho.
Mulher de Sonho, enojada com a perspetiva de pousar seu batom em sanitário alheio, resolveu, no decorrer da sua micção, guardá-lo no forro da tanga.
Sim, meus amigos, acreditem que o digo carregada de vergonha. Mas é a verdade: eu tornei-me numa guardadora de batons em forro de tangas.
As senhoras, presumo que saibam do que estou a falar. Para os senhores: o forro é uma espécie de bolso interior, que algumas peças de lingerie feminina apresentam, na zona em que são reforçadas.
E não só sou guardadora de batons em forro de tangas, como o sou a precisar de Memofant para a veia. Porque fiz o impensável e a seguir apaguei-o da memória. Se alguém teria razão para estar com sintomas de stress pós-traumático não era eu. Era o batom. Ou a tanga.
Só ao sentar-me, minutos mais tarde, é que a embalagem anatomicamente correta - mas de tamanho absurdamente inadequado -, deu sinal da sua presença, alertando-me assim - e agora a vocês - que isto está de facto muitíssimo perto do fim.
Caramba.
(E fascinante)
(E bela)
(E estranha)
Na sexta-feira saí do meu gabinete para ir à casa-de-banho. Levava comigo uns documentos para entregar (ficava em caminho), o telemóvel e o batom (foi depois do almoço, ia retocar).
Desfilei corredor fora, entreguei os documentos, fui à casa de banho.
Quando acabei de lavar as mãos, olhei para a bancada e nada. Só lá estava o telemóvel. O batom, nem vê-lo.
Regressei ao compartimento individual (não sei que raio de nome dar aquela coisa - mas é a casinha dentro da casinha). Nada.
Apalpei-me toda (primeiro para ver se o tinha nos bolsos, depois porque me entusiasmei) (ainda soltei um “és tão boa”) (ninguém ouviu). Nada.
E então segui para onde tinha entregue os documentos.
“Deixei aqui um batom?” (que merda ter que assumir que os meus lábios não são naturalmente rosados e brilhantes) (são, mas é mais de manhã) (shiu, calem-se!).
“Não, aqui não ficou nada...”
“Veja lá aí junto aos documentos.”
“Não, nada.”
A soltar impropérios metade do caminho, regressei ao gabinete.
Ando a dormir mal e se calhar nem cheguei a levar o batom. Devia estar na secretária, a fazer pouco de mim.
Não estava. Caramba. Perdi um batom na semana passada. Este desapareceu num percurso mínimo. Não é possível!
Voltei em fúria à casa-de-banho. (detesto perder coisas)
Olho para o bidé, olho para trás do bidé, olho para o autoclismo, espreito para trás do autoclismo. Mas nada. E nem tinha ideia de o ter pousado.
Ai que é desta que me fico.
A saúde mental já anda por um fio.
Queres ver que agora perco espaços de tempo? Ai ai ai.
Nunca mais como um donut de chocolate recheado de chocolate que o colesterol já me chegou às curvas do cérebro.
Já tenho a cabeça toda apanhada. Ai ai ai.
Desanimada, mas conformada, regressei ao gabinete.
Entrei, dei a volta à secretária e sentei-me.
E então percebi onde estava o c*brãozinho.
Mulher de Sonho, enojada com a perspetiva de pousar seu batom em sanitário alheio, resolveu, no decorrer da sua micção, guardá-lo no forro da tanga.
Sim, meus amigos, acreditem que o digo carregada de vergonha. Mas é a verdade: eu tornei-me numa guardadora de batons em forro de tangas.
As senhoras, presumo que saibam do que estou a falar. Para os senhores: o forro é uma espécie de bolso interior, que algumas peças de lingerie feminina apresentam, na zona em que são reforçadas.
E não só sou guardadora de batons em forro de tangas, como o sou a precisar de Memofant para a veia. Porque fiz o impensável e a seguir apaguei-o da memória. Se alguém teria razão para estar com sintomas de stress pós-traumático não era eu. Era o batom. Ou a tanga.
Só ao sentar-me, minutos mais tarde, é que a embalagem anatomicamente correta - mas de tamanho absurdamente inadequado -, deu sinal da sua presença, alertando-me assim - e agora a vocês - que isto está de facto muitíssimo perto do fim.
Caramba.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Sou tão mulher #5
Ainda estou para perceber de que sacrista de tear facial sou eu feita para me transformar numa faneca acabada de pescar de cada vez que ponho rímel.
Fico ali, em frente ao espelho, escova nas pestanas e boquinha aberta, com uma cara de surpresa como que a dizer “Oh! Rímel!!”.
Já vi outras mulheres a aplicar rímel. Ficamos todas surpreendidas de cada vez que aplicamos este tipo de maquilhagem.
Sabemos que a temos, gastamos tempo e dinheiro a escolher marcas, ou o produto que transforme pestanas de gente em pestanas de girafa, ou o que não saia nem que nos tentem afogar durante 3 horas numa sanita cheia de lixivia, e ainda assim, quando o vamos aplicar é sempre uma surpresa. “Oh! Rímel!!”.
O mesmo sucede com a busca (incessante) por pelos de sobrancelhas tresmalhados. Vocês sabem. Aqueles que nascem gordos e vigorosos, entre a pálpebra e a sobrancelha e que só descobrimos depois de uma tarde ao Sol com o rapaz por quem nos estamos a apaixonar. Nós derretidas, a achar que ele nos olhava intensamente por estar cheio de ardor e desejo. E o pobre diabo a tentar perceber se aquilo era mesmo um pelo ou se nos nasceu o bigode do Poirot numa vista.
Alarmadas com a possibilidade de tudo ter caído por terra, vamo-nos a eles com afiadas pinças (que até já têm lanterna) (sim, meus senhores, as mulheres executam práticas de tortura capilar semelhantes às que se nega existirem em Guantanamo) (foco de luz em cima dos poros e agora mostrem lá do que são feitos). E quando nos aproximamos do espelho, pimba, boca aberta. “Oh, pelos!!”
Se no entusiasmo da caça perdemos a cabeça e nos atiramos aos pelos do nariz, aí sim, é que os sentimentos se intensificam.
TPM, anúncios de bebés bochechudos, vídeos de gatinhos, venham eles. Mas ponham-me uma pinça no nariz e saquem-me um pelo, e é ver esta Mulher de Sonho a chorar copiosamente.
Raios lasers apontados ao pipi? Venham eles! Um puxão mal dado numa das narinas e só me acalmam passada meia hora.
Em caso de necessidade, cedo aprendi que a ordem certa, é: 1) sacar pelo do nariz e 2) aplicar rímel.
Esta ordem é invertível, se for Carnaval e eu estiver a preparar-me para sair de casa vestida de Pierrot.
Fico ali, em frente ao espelho, escova nas pestanas e boquinha aberta, com uma cara de surpresa como que a dizer “Oh! Rímel!!”.
Já vi outras mulheres a aplicar rímel. Ficamos todas surpreendidas de cada vez que aplicamos este tipo de maquilhagem.
Sabemos que a temos, gastamos tempo e dinheiro a escolher marcas, ou o produto que transforme pestanas de gente em pestanas de girafa, ou o que não saia nem que nos tentem afogar durante 3 horas numa sanita cheia de lixivia, e ainda assim, quando o vamos aplicar é sempre uma surpresa. “Oh! Rímel!!”.
O mesmo sucede com a busca (incessante) por pelos de sobrancelhas tresmalhados. Vocês sabem. Aqueles que nascem gordos e vigorosos, entre a pálpebra e a sobrancelha e que só descobrimos depois de uma tarde ao Sol com o rapaz por quem nos estamos a apaixonar. Nós derretidas, a achar que ele nos olhava intensamente por estar cheio de ardor e desejo. E o pobre diabo a tentar perceber se aquilo era mesmo um pelo ou se nos nasceu o bigode do Poirot numa vista.
Alarmadas com a possibilidade de tudo ter caído por terra, vamo-nos a eles com afiadas pinças (que até já têm lanterna) (sim, meus senhores, as mulheres executam práticas de tortura capilar semelhantes às que se nega existirem em Guantanamo) (foco de luz em cima dos poros e agora mostrem lá do que são feitos). E quando nos aproximamos do espelho, pimba, boca aberta. “Oh, pelos!!”
Se no entusiasmo da caça perdemos a cabeça e nos atiramos aos pelos do nariz, aí sim, é que os sentimentos se intensificam.
TPM, anúncios de bebés bochechudos, vídeos de gatinhos, venham eles. Mas ponham-me uma pinça no nariz e saquem-me um pelo, e é ver esta Mulher de Sonho a chorar copiosamente.
Raios lasers apontados ao pipi? Venham eles! Um puxão mal dado numa das narinas e só me acalmam passada meia hora.
Em caso de necessidade, cedo aprendi que a ordem certa, é: 1) sacar pelo do nariz e 2) aplicar rímel.
Esta ordem é invertível, se for Carnaval e eu estiver a preparar-me para sair de casa vestida de Pierrot.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
A arca das vaidades
Ontem fui ver a ante-estreia do filme Noé.
Noah, no original, trailer aqui.
Adoro ir a ante-estreias.
Detesto ir a ante-estreias.
Adoro porque me agrada a oportunidade de ver filmes antecipadamente. Como se uns dias fizessem toda a diferença. Como se regressasse do futuro.
Um pequeno poder é distribuído à saída da sala: se nos passarem à frente na fila do café, se não nos deixarem entrar primeiro no elevador ou se nos olharem uns graus mais de lado, vomitamos o filme todo e lá se vai a vossa experiência.
Não aplicável ao filme de ontem, claro. Que, com mais ou menos conhecimento da Bíblia, todos temos a ideia que o Noé não andou a construir uma marquise na casa de praia da Quarteira, com o objetivo de juntar peúgas aos pares, e assim evitar o flagelo da meia única que, com cara triste, nos olha do alguidar quando a tiramos da máquina de lavar. Molhada, enrugada e órfã.
Ainda assim, posso dizer-vos que esta versão é algo livre, com apontamentos hollywoodescos.
Quando achei que a minha penitência, por não ter comido em miúda a sopa até ao fim, tinha terminado nos últimos acordes com que o Russel Crowe me violentou os tímpanos no Les Miserables, estava enganada. Regressou toda a fruta que andei a esconder pela casa da minha avó, quando lá ficava nos Verões da infância e juntas procurávamos reduzir os litros de vitamina C que a minha mãezinha me queria enfiar goela abaixo - via quantidades diárias industriais de clementinas. Enfiando citrinos alaranjados em tudo o que era estante de livros ou gaveta de roupa interior, para evitar a horrenda provação, estou em crer que ainda hoje vive algures uma laranja-passa, enrugada pelo correr dos anos e triste de solidão, frustrada por não ter sido comida, como seria sua missão de vida. E por isso fui castigada.
Como? Saibam os cinéfilos leitores que Mr. Crowe arranjou forma de fazer cantar o seu Noé. Ou melhor, de fazer “cantar” o seu Noé. Não vão sem aviso. Arrisquem os que conseguirem. Passa depressa mas deixa marcas.
Entretanto, já disse que detesto ir a ante-estreias?
Detesto. Os pavões, os cata-ventos e as pseudo-famosas. A festa do croquete que precede a emissão da película é uma passarela de clichés rosa-choque.
Estavam lá todos. As atrizes que são sempre protagonistas, as atrizes que são sempre empregadas domésticas, os atores-modelo com os seus metroenoventa de altura e crânios XS, as loiras manequins com pernas até às orelhas, as tias Purezas e Xaxão, de cara esticada até à parte de trás do pescoço, os tios metidos em calças jeans encarnadas compradas na Loja das Meias e a chamarem-se diminutivos ridículos, seguidos de apelidos com pelo menos uma consoante repetida. Os mais distintos, com hifenes. Mas todos falidos e mortos de fome.
É como uma estância balnear caída em desgraça onde, em vez de pessoas normais, se passeiam criaturas girassol que giram conforme se mexem os flashes, caras castanhas engelhadas por anos de praia do Ancão e outras anormalmente bonitas mas profundamente ocas.
Não aprecio o constante avaliar de valor humano pelo número de vezes em que a legenda com o nome, na cobertura deste tipo de eventos - na página 50 da Caras - não estava incorreta. Coisas cá minhas.
Um ângulo curioso neste filme é o piscar de olhos à comunidade vegetariana e animalista em geral. O objetivo de Deus com a construção da arca, dito e repetido durante toda a história, é salvar os inocentes: os animais. Noé e a família condenam a caça e não comem animais (ficou por apurar se ingeriam bagas goji, sementes de linhaça e spirulina).
Os espetadores mais católicos devem preparar-se para um Noé mais negro - Velho Testamento à séria. Um gladiador bíblico, no fundo. O amor e a compaixão são para os animais. As pessoas que se f*dam.
E f*oderam!
(vá lá, não estraguei nada o fim!) (toda a gente já sabia, certo...?)
Noah, no original, trailer aqui.
Adoro ir a ante-estreias.
Detesto ir a ante-estreias.
Adoro porque me agrada a oportunidade de ver filmes antecipadamente. Como se uns dias fizessem toda a diferença. Como se regressasse do futuro.
Um pequeno poder é distribuído à saída da sala: se nos passarem à frente na fila do café, se não nos deixarem entrar primeiro no elevador ou se nos olharem uns graus mais de lado, vomitamos o filme todo e lá se vai a vossa experiência.
Não aplicável ao filme de ontem, claro. Que, com mais ou menos conhecimento da Bíblia, todos temos a ideia que o Noé não andou a construir uma marquise na casa de praia da Quarteira, com o objetivo de juntar peúgas aos pares, e assim evitar o flagelo da meia única que, com cara triste, nos olha do alguidar quando a tiramos da máquina de lavar. Molhada, enrugada e órfã.
Ainda assim, posso dizer-vos que esta versão é algo livre, com apontamentos hollywoodescos.
Quando achei que a minha penitência, por não ter comido em miúda a sopa até ao fim, tinha terminado nos últimos acordes com que o Russel Crowe me violentou os tímpanos no Les Miserables, estava enganada. Regressou toda a fruta que andei a esconder pela casa da minha avó, quando lá ficava nos Verões da infância e juntas procurávamos reduzir os litros de vitamina C que a minha mãezinha me queria enfiar goela abaixo - via quantidades diárias industriais de clementinas. Enfiando citrinos alaranjados em tudo o que era estante de livros ou gaveta de roupa interior, para evitar a horrenda provação, estou em crer que ainda hoje vive algures uma laranja-passa, enrugada pelo correr dos anos e triste de solidão, frustrada por não ter sido comida, como seria sua missão de vida. E por isso fui castigada.
Como? Saibam os cinéfilos leitores que Mr. Crowe arranjou forma de fazer cantar o seu Noé. Ou melhor, de fazer “cantar” o seu Noé. Não vão sem aviso. Arrisquem os que conseguirem. Passa depressa mas deixa marcas.
Entretanto, já disse que detesto ir a ante-estreias?
Detesto. Os pavões, os cata-ventos e as pseudo-famosas. A festa do croquete que precede a emissão da película é uma passarela de clichés rosa-choque.
Estavam lá todos. As atrizes que são sempre protagonistas, as atrizes que são sempre empregadas domésticas, os atores-modelo com os seus metroenoventa de altura e crânios XS, as loiras manequins com pernas até às orelhas, as tias Purezas e Xaxão, de cara esticada até à parte de trás do pescoço, os tios metidos em calças jeans encarnadas compradas na Loja das Meias e a chamarem-se diminutivos ridículos, seguidos de apelidos com pelo menos uma consoante repetida. Os mais distintos, com hifenes. Mas todos falidos e mortos de fome.
É como uma estância balnear caída em desgraça onde, em vez de pessoas normais, se passeiam criaturas girassol que giram conforme se mexem os flashes, caras castanhas engelhadas por anos de praia do Ancão e outras anormalmente bonitas mas profundamente ocas.
Não aprecio o constante avaliar de valor humano pelo número de vezes em que a legenda com o nome, na cobertura deste tipo de eventos - na página 50 da Caras - não estava incorreta. Coisas cá minhas.
Um ângulo curioso neste filme é o piscar de olhos à comunidade vegetariana e animalista em geral. O objetivo de Deus com a construção da arca, dito e repetido durante toda a história, é salvar os inocentes: os animais. Noé e a família condenam a caça e não comem animais (ficou por apurar se ingeriam bagas goji, sementes de linhaça e spirulina).
Os espetadores mais católicos devem preparar-se para um Noé mais negro - Velho Testamento à séria. Um gladiador bíblico, no fundo. O amor e a compaixão são para os animais. As pessoas que se f*dam.
E f*oderam!
(vá lá, não estraguei nada o fim!) (toda a gente já sabia, certo...?)
quarta-feira, 2 de abril de 2014
The fi(a)nal frontier
Quantos milhares de homens já deram por si à janela da cozinha, numa noite de lua cheia, a suspirar por um ânus apertado por onde fazer passar a sua masculinidade?
Quantos, desde o início dos tempos, terão regateado, chantageado e chegado a impor a sua vontade, face ao desejado evento do sexo anal?
Numa mudança de posição, confrontados com a oportunidade (aparentemente) certa, quantos terão tentado fazer(-se) deslizar para diferentes paragens, apenas para serem violentamente acordados na linha da meta, por um estridente “Oi, mas aonde é que tu vais? Não é aí!”?
Por que será que tantos homens anseiam por (um) cu?
Sendo mulher, e por isso mera observadora desta vontade gulosa, suspeito que seja uma combinação de fatores.
A questão anatómica - por ser um canal mais estreito - terá o seu contributo. Mas se fosse só isso, a humanidade já teria acrescentado ao sexo vaginal, oral e anal, o sexo nasal.
E era ver, mundo fora, mulheres de rua com as narinas deformadas e cheias de estrias. Mulheres jovens a pedir envergonhadamente às esteticistas pistas de aterragem ou, em ocasiões especiais, narizes completamente depilados. Mulheres cansadas a usar com frequência o argumento “Hoje não. Estou com sinusite.” E as resolvidas a comprar tampões vibratórios que os seus homens lhes inseririam no nariz durante o sexo. Para as mais devassas, haveria modelos de entrada dupla.
Filmes eróticos de sucesso incluiriam êxitos estrondosos como “Nariz Fundo” ou “O Império do Olfato”. No mais recente do Lars Von Trier, “Ninfomaníaca”, seriamos brindados com uma cena de 15 minutos entre a protagonista e duas embalagens de Nasex Nebulizador. O Pinóquio seria exibido em sessões contínuas no Cine Paraíso.
Portanto, o aperto conta, mas não será tudo.
A submissão - ou, antes, a ilusão da submissão -, pela posição que habitualmente se associa a este tipo de sexo, poderá ser outro fator. O macho gosta de controlo. Está no seu código genético. O domínio da situação pode funcionar como um elemento de excitação, ainda que não em absoluto.
Há muitos homens que procuram na cama exatamente o oposto. Homens com poder que querem ser subjugados por mazonas vestidas de preto e armadas até aos dentes com chibatas, velas e botas pontiagudas. Nem um pingo de misericórdia naqueles corpos cobertos de cabedal - e eles adoram.
Controlar a situação pode contribuir para este popular anseio masculino mas será apenas isso?
Quebrar barreiras. Explorar novos territórios. Enfrentar criaturas mitológicas com uma espada de carne. Espetar bandeiras de sémen onde uma pequena penetração pode ser pequena para um homem, mas gigante para uma mulher.
Serão na verdade os nossos homens uns nostálgicos? Procurarão eles nos nossos traseiros, as infâncias perdidas? As histórias de heróis e de bandidos? O fascínio das missões espaciais? Quererão eles ser exploradores marítimos, embarcados em naus com nádegas, expostos ao escorbuto e a canais retais mal lavados, com o objetivo apaixonado de descobrir terras paradisíacas? Será isso?
Talvez seja tão-somente esta combinação de fatores mais um outro decisivo: é uma janela de oportunidade que surge em quantidades mais reduzidas. É um bem mais escasso. É um pote de ouro no final de um arco-íris. É algo que muitas mulheres só proporcionam a quem verdadeiramente amam. Haverá muitas que o fazem por genuíno prazer - não duvido. Sei que há. Conheço uma ou duas. Mas arriscaria dizer que a maioria o faz pelos seus homens. Pelo brilho no olhar. Pela alegria inocente. Pelo sorriso genuíno.
E porque a seguir lhes podem pedir que levem o lixo, sequem a loiça e lhes aspirem o carro. E eles lá vão. E felizes.
Quantos, desde o início dos tempos, terão regateado, chantageado e chegado a impor a sua vontade, face ao desejado evento do sexo anal?
Numa mudança de posição, confrontados com a oportunidade (aparentemente) certa, quantos terão tentado fazer(-se) deslizar para diferentes paragens, apenas para serem violentamente acordados na linha da meta, por um estridente “Oi, mas aonde é que tu vais? Não é aí!”?
Por que será que tantos homens anseiam por (um) cu?
Sendo mulher, e por isso mera observadora desta vontade gulosa, suspeito que seja uma combinação de fatores.
A questão anatómica - por ser um canal mais estreito - terá o seu contributo. Mas se fosse só isso, a humanidade já teria acrescentado ao sexo vaginal, oral e anal, o sexo nasal.
E era ver, mundo fora, mulheres de rua com as narinas deformadas e cheias de estrias. Mulheres jovens a pedir envergonhadamente às esteticistas pistas de aterragem ou, em ocasiões especiais, narizes completamente depilados. Mulheres cansadas a usar com frequência o argumento “Hoje não. Estou com sinusite.” E as resolvidas a comprar tampões vibratórios que os seus homens lhes inseririam no nariz durante o sexo. Para as mais devassas, haveria modelos de entrada dupla.
Filmes eróticos de sucesso incluiriam êxitos estrondosos como “Nariz Fundo” ou “O Império do Olfato”. No mais recente do Lars Von Trier, “Ninfomaníaca”, seriamos brindados com uma cena de 15 minutos entre a protagonista e duas embalagens de Nasex Nebulizador. O Pinóquio seria exibido em sessões contínuas no Cine Paraíso.
Portanto, o aperto conta, mas não será tudo.
A submissão - ou, antes, a ilusão da submissão -, pela posição que habitualmente se associa a este tipo de sexo, poderá ser outro fator. O macho gosta de controlo. Está no seu código genético. O domínio da situação pode funcionar como um elemento de excitação, ainda que não em absoluto.
Há muitos homens que procuram na cama exatamente o oposto. Homens com poder que querem ser subjugados por mazonas vestidas de preto e armadas até aos dentes com chibatas, velas e botas pontiagudas. Nem um pingo de misericórdia naqueles corpos cobertos de cabedal - e eles adoram.
Controlar a situação pode contribuir para este popular anseio masculino mas será apenas isso?
Quebrar barreiras. Explorar novos territórios. Enfrentar criaturas mitológicas com uma espada de carne. Espetar bandeiras de sémen onde uma pequena penetração pode ser pequena para um homem, mas gigante para uma mulher.
Serão na verdade os nossos homens uns nostálgicos? Procurarão eles nos nossos traseiros, as infâncias perdidas? As histórias de heróis e de bandidos? O fascínio das missões espaciais? Quererão eles ser exploradores marítimos, embarcados em naus com nádegas, expostos ao escorbuto e a canais retais mal lavados, com o objetivo apaixonado de descobrir terras paradisíacas? Será isso?
Talvez seja tão-somente esta combinação de fatores mais um outro decisivo: é uma janela de oportunidade que surge em quantidades mais reduzidas. É um bem mais escasso. É um pote de ouro no final de um arco-íris. É algo que muitas mulheres só proporcionam a quem verdadeiramente amam. Haverá muitas que o fazem por genuíno prazer - não duvido. Sei que há. Conheço uma ou duas. Mas arriscaria dizer que a maioria o faz pelos seus homens. Pelo brilho no olhar. Pela alegria inocente. Pelo sorriso genuíno.
E porque a seguir lhes podem pedir que levem o lixo, sequem a loiça e lhes aspirem o carro. E eles lá vão. E felizes.
Caros leitores do género masculino, se tiverem respostas para nós, é chegarem-se à frente.
Vão ver que não dói nada.
terça-feira, 1 de abril de 2014
I'm not bad. I'm just drawn that way.
Tiveram uma boa segunda-feira, tiveram? Espero que sim. No mínimo, estou segura de que terá sido melhor do que a minha, já que esta vossa Mulher de Sonho (es)teve (n)uma exótica experiência ao nível do oculto.
Possessão. Foi o que me sucedeu na madrugada de domingo para segunda. Fui possuída. Por um dragão. Desorientado. Estão a ver o fogo que sai da boca dos dragões? O dragão que me ocupou a carcaça, estava claramente desorientado. Se é que me faço entender.
Sentada aos comandos da minha poltrona de loiça, comandei as operações de exorcismo deste violento monstro toda a madrugada e boa parte do dia de ontem.
Quem manda cozinhar com (demasiado) piri-piri…?
Se o jantar de Domingo estava bom? Estava. Mas não precisava de o rever passadas tão poucas horas.
Numa nota mais positiva, tenho a dizer-vos que estou aqui a reluzir de vaidade.
No domingo fui fazer a Corrida do Benfica e apesar de não treinar desde o Verão e de andar há meses a encher o bandulho de porcarias (deliciosas), fiz a corrida toda.
Sozinha, deixada à mercê da chuvada bíblica que decorreu durante quase toda a prova, encharcada até aos ossos, a correr em zigue-zagues para evitar as poças (que não evitei) (quando cheguei ao carro tirei as meias e caiu de lá um cardume) (de atuns), consegui superar o meu melhor tempo. Fiquei verdadeiramente satisfeita!
E a experiência não acabou na meta. Na zona VIP o ambiente era excelente. Sim, porque estava abrigado e sim, porque havia caras simpáticas, mas o que realmente fez a diferença foi a pastelaria. Pastéis de nata, bolinhos secos, empadas, croissants. Tudo em miniatura. Metade do tamanho, dobro do prazer.
Sou uma senhora, mas não me tentem com pastelaria anã. Adoro comida de brincar.
Estou pronta para regressar. Correr é um vício. E dos bons.
Se me apresentarem pastelaria no final, sou menina para daqui a uns tempos estar numa maratona.
A minha motivação? Ser fabulosa como a Jessica Rabbit, comer despreocupadamente, mas evitar chegar a isto.
Possessão. Foi o que me sucedeu na madrugada de domingo para segunda. Fui possuída. Por um dragão. Desorientado. Estão a ver o fogo que sai da boca dos dragões? O dragão que me ocupou a carcaça, estava claramente desorientado. Se é que me faço entender.
Sentada aos comandos da minha poltrona de loiça, comandei as operações de exorcismo deste violento monstro toda a madrugada e boa parte do dia de ontem.
Quem manda cozinhar com (demasiado) piri-piri…?
Se o jantar de Domingo estava bom? Estava. Mas não precisava de o rever passadas tão poucas horas.
Numa nota mais positiva, tenho a dizer-vos que estou aqui a reluzir de vaidade.
No domingo fui fazer a Corrida do Benfica e apesar de não treinar desde o Verão e de andar há meses a encher o bandulho de porcarias (deliciosas), fiz a corrida toda.
Sozinha, deixada à mercê da chuvada bíblica que decorreu durante quase toda a prova, encharcada até aos ossos, a correr em zigue-zagues para evitar as poças (que não evitei) (quando cheguei ao carro tirei as meias e caiu de lá um cardume) (de atuns), consegui superar o meu melhor tempo. Fiquei verdadeiramente satisfeita!
E a experiência não acabou na meta. Na zona VIP o ambiente era excelente. Sim, porque estava abrigado e sim, porque havia caras simpáticas, mas o que realmente fez a diferença foi a pastelaria. Pastéis de nata, bolinhos secos, empadas, croissants. Tudo em miniatura. Metade do tamanho, dobro do prazer.
Sou uma senhora, mas não me tentem com pastelaria anã. Adoro comida de brincar.
Estou pronta para regressar. Correr é um vício. E dos bons.
Se me apresentarem pastelaria no final, sou menina para daqui a uns tempos estar numa maratona.
A minha motivação? Ser fabulosa como a Jessica Rabbit, comer despreocupadamente, mas evitar chegar a isto.
Ó Jessica, filha, calças os ténis e vem daí.
Já sabemos que te desenharam assim, mas tens que reagir.
Caramba.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Olháá mudança da hora!
Não se esqueçam que é já na madrugada de sábado para domingo que muda a hora.
Eu adoro a hora de Verão.
Adoro quando os dias são mais compridos e ainda saímos do emprego com tempo para ir ao ginásio e sair com um fio de luz. Isto, claro, quando se consegue sair cedo e para quem não fica às três horas no ginásio a dar no ferro. Eu não fico.
Agora, sim, bom fim-de-semana!
Em Portugal continental e na Madeira, à 1h da manhã adiantamos o relógio para as 2h. Nos Açores a mudança é feita à meia-noite.
Na Europa, a mudança da hora começou durante a Primeira Guerra Mundial, com o objetivo de poupar combustível.
Em 1992 adotámos o horário da Europa central. Era bom, para viajar pelos países mais próximos sem andar a mexer no relógio, mas a opção foi pouco consensual porque a luz do dia chegava muito tarde no Inverno (e quem é que nos arranca da cama quando ainda é noite escura e está frio na rua?). Já no Verão podíamos jantar na praia e ainda ler o jornal a seguir. Era de dia quase até às dez! Uma maluqueira.
Em 1996 foi reposta a hora antiga e assim se manteve.Eu adoro a hora de Verão.
Adoro quando os dias são mais compridos e ainda saímos do emprego com tempo para ir ao ginásio e sair com um fio de luz. Isto, claro, quando se consegue sair cedo e para quem não fica às três horas no ginásio a dar no ferro. Eu não fico.
Adoro os finais de dia na praia, quando o Sol está para se pôr, e as gaivotas se começam a juntar à beira da água.
Se eu pudesse mandar, mandava que fosse sempre Verão. Até podia chover, mas só nos campos de cultivo e nas hortas caseiras e em cima de quem gosta. “Ai gosta do tempinho cinzento? Então tome lá esta nuvenzinha que o vai acompanhar o resto da semana, mesmo por cima do toutiço”.
Portanto, para quem não tem só aparelhos eletrónicos - daqueles espertos que nem um alho, que fazem o acerto sozinhos -, a tarefa é mesmo manual.
No meu caso, com a quantidade de relógios de pulso que vivem lá em casa (adoro), vou reservar todo o domingo para essa tarefa.
(não vou nada: faço isso num esfregar de olhos e depois fico alapada no sofá, só a existir)
(não fico, vou à Corrida do Benfica)
(a menos que esteja a chover pedra)
(ou mesmo se chover muita água)
(nesse caso fico em casa porque não gosto de me molhar)
(talvez aproveite para tomar um banho de imersão)
Agora, sim, bom fim-de-semana!
De facto...
A guerra feita por soldados nus cheira a peixe
O título era “Rússia apodera-se do exército ucraniano de golfinhos”.
E eu pensei “Não…”.
A primeira frase do artigo dizia “Uma elite de golfinhos altamente treinados para desempenhar tarefas militares na Marinha da Ucrânia, como a deteção de minas submersíveis ou o combate a veículos invasores, pertence agora às forças russas”.
E eu levei a mão à testa, abanei a cabeça, incrédula, e pensei “Elite de golfinhos? Não…”.
Umas linhas abaixo, continuava. “Com a anexação da Crimeia pela Rússia, os animais são agora propriedade das forças militares russas, que deverão continuar com o programa – que também treina leões-marinhos para fins militares”.
Já de queixo encostado ao teclado, soltei “Leões-marinhos para fins militares?!"
E quando os meus olhos bateram nestas imagens, saiu-me um robusto “F*da-se!”
Mas está tudo parvo?
Nem vou falar das óbvias questões éticas. Parecem-me por demais evidentes. Falarei, sim, de outra problemática que me inquietou e que estou segura que se alapará à vossa alma, depois de hoje.
Então alinham estes soldados para o combate e não se lhes arranjam uniformes? Mas que raio de forças armadas são estas? Ninguém espera ver um magala no expresso das sete para Viseu todo nu, pois não? Então por que é que quando o Flipper vai visitar a mãe tem que ir em pelota?
“Ai e tal, isso é parvo porque os animais não usam roupa”. Ah, mas recrutá-los à força para guerras estúpidas (perdoem a redundância), já pode ser, não é? E se vai ser esse o vosso argumento, tomem lá.
Portanto sobre a roupa, estamos conversados, certo?
Então não se arranja um fatinho de banho, um speedo ou umas bermudas, para a malta da marinha animal, porquê? Temos cá distinções, é? Aos cavalos da Guarda Republicana até tranças na crina lhes fazem. Com os leões marinhos, que têm que andar com a genitália à mostra, sujeitos a serem gozados pelo inimigo, ninguém se importa. Está mal!
E o uniforme de gala? Não me digam que se houver uma festa da Messe dos Oficiais vão abrir uma exceção ao dress code só por causa da elite dos golfinhos. Não acredito. O mais certo é serem discriminados e acabarem todos barrados à entrada por quatro pastores alemães da GNR.
E dizem vocês “Mas ó Mulher de Sonho, sim senhor, estas são questões pertinentes, mas este texto está um bocado estranho… Tens a certeza que andas a dormir bem?”.
E respondo eu “Shiuu, calem-se, que estou a tentar ouvir este ensemble de saxofones da Banda Militar dos Crustáceos da Marinha”.
De maneiras que ainda bem que amanhã é Sábado.
Tenham um excelente fim-de-semana, sim?
E eu pensei “Não…”.
A primeira frase do artigo dizia “Uma elite de golfinhos altamente treinados para desempenhar tarefas militares na Marinha da Ucrânia, como a deteção de minas submersíveis ou o combate a veículos invasores, pertence agora às forças russas”.
E eu levei a mão à testa, abanei a cabeça, incrédula, e pensei “Elite de golfinhos? Não…”.
Umas linhas abaixo, continuava. “Com a anexação da Crimeia pela Rússia, os animais são agora propriedade das forças militares russas, que deverão continuar com o programa – que também treina leões-marinhos para fins militares”.
Já de queixo encostado ao teclado, soltei “Leões-marinhos para fins militares?!"
E quando os meus olhos bateram nestas imagens, saiu-me um robusto “F*da-se!”
Depois de séculos a recrutar cavalos, mulas, cães, porcos, elefantes, camelos, morcegos, pombos e ratazanas (sim, sim, ratazanas amiguinhas, hum, tão fofinhas), e atribuir-lhes tarefas de transporte e/ou de deteção de minas e/ou missões suicidas (que melhor dizendo, são homicidas porque o desgraçado do animal não sabe ao que vai), as forças armadas chegaram aos mares para alinhar esta malta nos seus exércitos.
Mas está tudo parvo?
Nem vou falar das óbvias questões éticas. Parecem-me por demais evidentes. Falarei, sim, de outra problemática que me inquietou e que estou segura que se alapará à vossa alma, depois de hoje.
Então alinham estes soldados para o combate e não se lhes arranjam uniformes? Mas que raio de forças armadas são estas? Ninguém espera ver um magala no expresso das sete para Viseu todo nu, pois não? Então por que é que quando o Flipper vai visitar a mãe tem que ir em pelota?
“Ai e tal, isso é parvo porque os animais não usam roupa”. Ah, mas recrutá-los à força para guerras estúpidas (perdoem a redundância), já pode ser, não é? E se vai ser esse o vosso argumento, tomem lá.
Portanto sobre a roupa, estamos conversados, certo?
Então não se arranja um fatinho de banho, um speedo ou umas bermudas, para a malta da marinha animal, porquê? Temos cá distinções, é? Aos cavalos da Guarda Republicana até tranças na crina lhes fazem. Com os leões marinhos, que têm que andar com a genitália à mostra, sujeitos a serem gozados pelo inimigo, ninguém se importa. Está mal!
E o uniforme de gala? Não me digam que se houver uma festa da Messe dos Oficiais vão abrir uma exceção ao dress code só por causa da elite dos golfinhos. Não acredito. O mais certo é serem discriminados e acabarem todos barrados à entrada por quatro pastores alemães da GNR.
E dizem vocês “Mas ó Mulher de Sonho, sim senhor, estas são questões pertinentes, mas este texto está um bocado estranho… Tens a certeza que andas a dormir bem?”.
E respondo eu “Shiuu, calem-se, que estou a tentar ouvir este ensemble de saxofones da Banda Militar dos Crustáceos da Marinha”.
De maneiras que ainda bem que amanhã é Sábado.
Tenham um excelente fim-de-semana, sim?
quinta-feira, 27 de março de 2014
Porque às vezes os gases intestinais salvam vidas
É sempre um momento de alegria e pânico quando colegas de trabalho levam bebés ainda frescos a conhecer o escritório.
Dois ou três meses depois do nascimento é quase matemático. Ovo ou carrinho, sacos e bolsas, uma girafa de peluche, olheiras até ao umbigo e o ar mais feliz do mundo por estar novamente entre adultos (também pode ser histeria nervosa, da privação de sono).
Normalmente os corredores enchem-se de mulheres, tudo debruçado para espreitar a nova vida, num chilrear colorido e agudo, audível do outro lado da estrada.
É um momento de alegria porque estivemos sem nos ver alguns meses. Vamos acompanhando a gravidez (nuns casos com maior proximidade, noutros só a evolução das barrigas e diâmetro dos tornozelos), falando sobre as várias etapas, as ecografias, os testes, as expectativas, e agora, finalmente, ali está o produto de tanta agitação e bacalhau com smarties às três da manhã.
Normalmente são as mães de primeira apanha que correm a partilhar o fruto do seu ventre. Quando são segundos ou terceiros filhos só os conhecemos na festa de Natal da empresa. Ou nas férias da Páscoa, no primeiro ano da escola.
Como não tenho filhos, sou sempre a escolhida para pegar na criança. Insistem que “tenho que treinar”. E é aí que entra o pânico.
A sério? Querem MESMO que seja alguém que tem tanto jeito para pegar em bebés como para dançar o can-can depois de três copos de sangria, que segure na coisa mais preciosa da vossa vida? Mesmo? É que para mim todos os bebés são feitos de sabão. Sinto que, quanto mais os apertar - para garantir que chegam à idade de andar (e com essa capacidade intacta) -, mais eles vão sair disparados contra a grelha do ar condicionado no teto.
Quando me passam a criança, os meus braços avariam automaticamente. Perdem a capacidade de dobrar pelo cotovelo. Fico com duas pás agarradas às omoplatas, tesas e paralelas, e um puto com cara de espanto, pendurado pelos sovacos, lá na ponta.
Garanto sempre que a criança é mantida a uma distância que assegure que: a) não vai bolsar para a minha boca e b) se a deixar cair ainda consigo ganhar alguma distância e acusar outra pessoa.
Enquanto faço de cabide humano, vou choramingando que não sei fazer aquilo e que peloamordedeus alguém a agarre antes que eu me desgrace. Mas por mais que as mães digam que não há maior amor no mundo, parece que secretamente querem que eu as livre daquela responsabilidade. Ocupadas a falar com outras mães de temas tão absorventes como gretas nos mamilos, ignoram os meus apelos cada vez mais desesperados.
É só quando o bebé, exasperado de tanto desconforto axilar, abre a goela ou apresenta argumentos de peso (ao nível dos sólidos), que alguém nos acode.
Temo que da próxima vez que me passarem um recém-nascido para as mãos, me sentirei tentada a soltar discretamente um gás.
Sou uma senhora, mas não funciono bem com este tipo de pressão.
Dois ou três meses depois do nascimento é quase matemático. Ovo ou carrinho, sacos e bolsas, uma girafa de peluche, olheiras até ao umbigo e o ar mais feliz do mundo por estar novamente entre adultos (também pode ser histeria nervosa, da privação de sono).
Normalmente os corredores enchem-se de mulheres, tudo debruçado para espreitar a nova vida, num chilrear colorido e agudo, audível do outro lado da estrada.
É um momento de alegria porque estivemos sem nos ver alguns meses. Vamos acompanhando a gravidez (nuns casos com maior proximidade, noutros só a evolução das barrigas e diâmetro dos tornozelos), falando sobre as várias etapas, as ecografias, os testes, as expectativas, e agora, finalmente, ali está o produto de tanta agitação e bacalhau com smarties às três da manhã.
Normalmente são as mães de primeira apanha que correm a partilhar o fruto do seu ventre. Quando são segundos ou terceiros filhos só os conhecemos na festa de Natal da empresa. Ou nas férias da Páscoa, no primeiro ano da escola.
Como não tenho filhos, sou sempre a escolhida para pegar na criança. Insistem que “tenho que treinar”. E é aí que entra o pânico.
A sério? Querem MESMO que seja alguém que tem tanto jeito para pegar em bebés como para dançar o can-can depois de três copos de sangria, que segure na coisa mais preciosa da vossa vida? Mesmo? É que para mim todos os bebés são feitos de sabão. Sinto que, quanto mais os apertar - para garantir que chegam à idade de andar (e com essa capacidade intacta) -, mais eles vão sair disparados contra a grelha do ar condicionado no teto.
Quando me passam a criança, os meus braços avariam automaticamente. Perdem a capacidade de dobrar pelo cotovelo. Fico com duas pás agarradas às omoplatas, tesas e paralelas, e um puto com cara de espanto, pendurado pelos sovacos, lá na ponta.
Garanto sempre que a criança é mantida a uma distância que assegure que: a) não vai bolsar para a minha boca e b) se a deixar cair ainda consigo ganhar alguma distância e acusar outra pessoa.
Enquanto faço de cabide humano, vou choramingando que não sei fazer aquilo e que peloamordedeus alguém a agarre antes que eu me desgrace. Mas por mais que as mães digam que não há maior amor no mundo, parece que secretamente querem que eu as livre daquela responsabilidade. Ocupadas a falar com outras mães de temas tão absorventes como gretas nos mamilos, ignoram os meus apelos cada vez mais desesperados.
É só quando o bebé, exasperado de tanto desconforto axilar, abre a goela ou apresenta argumentos de peso (ao nível dos sólidos), que alguém nos acode.
Temo que da próxima vez que me passarem um recém-nascido para as mãos, me sentirei tentada a soltar discretamente um gás.
Sou uma senhora, mas não funciono bem com este tipo de pressão.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Sou tão mulher #4
Sei quando está na altura. Sinto na forma como se comporta, nos jeitos que tem ou nos que não tem. Parece mais pesado e acusa a passagem do tempo. Às vezes é uma necessidade, outras simplesmente uma vontade.
Há quem seja ferozmente fiel ao que sabe que resulta. Há quem seja profissional da mudança. Há quem o faça de forma radical - o fim de um relacionamento é um grande clássico.
Seja em que circunstância for, uma coisa é certa: nenhuma mulher vai cortar o cabelo de forma casual.
Não somos como tantos homens, que passam descontraidamente à hora do almoço no barbeiro. Não. Para nós, se envolve tesouras, é assunto sério.
O “só dois dedos” deve ser a expressão mais ouvida em cabeleireiros. Logo seguida de “só um dedo”, “só as pontinhas” e de “posso ver esta, ou ainda está a ler?” (revistas cor-de-rosa sabem melhor com cheiro a laca - é cientifico).
Queremos sempre cortar o mínimo indispensável. Não queremos estar ali mas cabelo espigado não é vida. Se houvesse uma cola que fechasse as putas das pontas, era ver-nos no site da UHU a encomendar às cinco caixas de cada vez.
Desenvolvemos uma anorexia capilar quando vemos o cabelo caído à volta da cadeira: são meia dúzia de fios mas nós vemos cabelo suficiente para recriar a trança da Rapunzel. Secretamente detestamos a nossa cabeleireira porque sabemos que encarnou o Eduardo Mãos de Tesoura e fez um massacre na nossa cabeça.
Ficamos chocadas quando mais ninguém assinala a chacina de que fomos alvo. Dos homens, estamos mais ou menos à espera. Perguntamos se não notam, mas mais para fazer género. Não temos grandes expectativas enquanto não der para colar mamilos ao couro cabeludo.
Mas, e as colegas de trabalho, e as amigas, e o amigo gay? Como é que não se unem na nossa dor, carpindo o cabelo assassinado? Como podem dizer que mal se nota, se ainda no duche dessa manhã sentimos que estávamos praticamente carecas? Somos vítimas, caramba, vítimas!
Também há momentos em que o fazemos cheias de ganas, a apontar para revistas, a invocar famosas, a gesticular no ar, num desespero para garantir que teremos o que imaginámos. Precisamos de uma mudança e vamos tê-la na base da tesourada.
Às vezes a culpa é das modas, como foi recentemente a da franja. Andava tudo de persiana corrida até aos olhos mas eu nunca tive coragem. Uma franja é demasiado compromisso para uma alma livre como a minha.
Há vinte anos eram as permanentes. Dizia-se que secava as raízes e dava volume. Eu acho que só serviu para assustar quem se vê em fotografias dessa altura.
Tenho uma amiga que se separou e que aparentemente deu a custódia do seu longo cabelo ondulado ao marido. Um dia chegou ao pé de mim com o mesmo corte que o Vítor Gaspar. “Precisava de uma mudança” dizia-me ela, entre um lábio a tremer e um par de olhos suplicantes por conforto. Não pude mentir. Nestas coisas do cabelo, sou muito mulher mas também sou muito homem. Gosto de ver uma mulher de cabelo comprido. Acho mais feminino.
Dirão que há mulheres muito sexys com quatro centímetros de cabelo. E eu concordarei. Mas tenho para mim que são felizes exceções. Pela parte que me toca, sei que pareço uma lésbica pouco convicta. E sei isto porque em tempos fui a um cabeleireiro que não conhecia e cometi o pecado capital de lhe dar carta branca. Nunca mais lá voltei. Conto-vos um dia. Quando as feridas da alma sararem.
Saibam portanto que na próxima semana vou cortar o cabelo.
Só dois dedos.
Se estiverem a planear o mesmo e a coisa vos correr muito mal, ou se forem simplesmente apaixonados por chapéus, como esta Mulher de Sonho que vos escreve, não deixem de visitar a chapelaria D'Aquino.
Chapéus há muitos, já sabemos. Mas se quiserem chapéus de qualidade, muita variedade e preços justos, encontram-nos nesta loja da Baixa de Lisboa.
Há para homens e para senhoras, de Inverno e de Verão. Fui lá no fim-de-semana para trocar um chapéu que me tinham oferecido. Saí de lá com três.
Sou uma besta consumista.
E, pelo sim, pelo não, fico já prevenida.
Há quem seja ferozmente fiel ao que sabe que resulta. Há quem seja profissional da mudança. Há quem o faça de forma radical - o fim de um relacionamento é um grande clássico.
Seja em que circunstância for, uma coisa é certa: nenhuma mulher vai cortar o cabelo de forma casual.
Não somos como tantos homens, que passam descontraidamente à hora do almoço no barbeiro. Não. Para nós, se envolve tesouras, é assunto sério.
O “só dois dedos” deve ser a expressão mais ouvida em cabeleireiros. Logo seguida de “só um dedo”, “só as pontinhas” e de “posso ver esta, ou ainda está a ler?” (revistas cor-de-rosa sabem melhor com cheiro a laca - é cientifico).
Queremos sempre cortar o mínimo indispensável. Não queremos estar ali mas cabelo espigado não é vida. Se houvesse uma cola que fechasse as putas das pontas, era ver-nos no site da UHU a encomendar às cinco caixas de cada vez.
Desenvolvemos uma anorexia capilar quando vemos o cabelo caído à volta da cadeira: são meia dúzia de fios mas nós vemos cabelo suficiente para recriar a trança da Rapunzel. Secretamente detestamos a nossa cabeleireira porque sabemos que encarnou o Eduardo Mãos de Tesoura e fez um massacre na nossa cabeça.
Ficamos chocadas quando mais ninguém assinala a chacina de que fomos alvo. Dos homens, estamos mais ou menos à espera. Perguntamos se não notam, mas mais para fazer género. Não temos grandes expectativas enquanto não der para colar mamilos ao couro cabeludo.
Mas, e as colegas de trabalho, e as amigas, e o amigo gay? Como é que não se unem na nossa dor, carpindo o cabelo assassinado? Como podem dizer que mal se nota, se ainda no duche dessa manhã sentimos que estávamos praticamente carecas? Somos vítimas, caramba, vítimas!
Também há momentos em que o fazemos cheias de ganas, a apontar para revistas, a invocar famosas, a gesticular no ar, num desespero para garantir que teremos o que imaginámos. Precisamos de uma mudança e vamos tê-la na base da tesourada.
Às vezes a culpa é das modas, como foi recentemente a da franja. Andava tudo de persiana corrida até aos olhos mas eu nunca tive coragem. Uma franja é demasiado compromisso para uma alma livre como a minha.
Há vinte anos eram as permanentes. Dizia-se que secava as raízes e dava volume. Eu acho que só serviu para assustar quem se vê em fotografias dessa altura.
Tenho uma amiga que se separou e que aparentemente deu a custódia do seu longo cabelo ondulado ao marido. Um dia chegou ao pé de mim com o mesmo corte que o Vítor Gaspar. “Precisava de uma mudança” dizia-me ela, entre um lábio a tremer e um par de olhos suplicantes por conforto. Não pude mentir. Nestas coisas do cabelo, sou muito mulher mas também sou muito homem. Gosto de ver uma mulher de cabelo comprido. Acho mais feminino.
Dirão que há mulheres muito sexys com quatro centímetros de cabelo. E eu concordarei. Mas tenho para mim que são felizes exceções. Pela parte que me toca, sei que pareço uma lésbica pouco convicta. E sei isto porque em tempos fui a um cabeleireiro que não conhecia e cometi o pecado capital de lhe dar carta branca. Nunca mais lá voltei. Conto-vos um dia. Quando as feridas da alma sararem.
Saibam portanto que na próxima semana vou cortar o cabelo.
Só dois dedos.
Se estiverem a planear o mesmo e a coisa vos correr muito mal, ou se forem simplesmente apaixonados por chapéus, como esta Mulher de Sonho que vos escreve, não deixem de visitar a chapelaria D'Aquino.
Chapéus há muitos, já sabemos. Mas se quiserem chapéus de qualidade, muita variedade e preços justos, encontram-nos nesta loja da Baixa de Lisboa.
Há para homens e para senhoras, de Inverno e de Verão. Fui lá no fim-de-semana para trocar um chapéu que me tinham oferecido. Saí de lá com três.
Sou uma besta consumista.
E, pelo sim, pelo não, fico já prevenida.
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