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sexta-feira, 7 de março de 2014

Sou tão mulher #2

Entro no supermercado sempre atenta às promoções. Desconfio e comparo preços. Ao cêntimo. Não comparo o preço final: comparo o preço por quilo ou por litro. A mim não me enganam com mais x% de produto ou uma embalagem de oferta, colada com fita adesiva. Pagamos tudo isso bem caro. E se for uma exceção, e for de facto oferta, fruto de um qualquer delírio de marketing, eu quero ter essa alegria comprovada na alma.

Compro marcas brancas. Não em todos os produtos (sobretudo não nos de higiene e limpeza, em que gosto e confio em marcas que já conheço) mas noutros, de alimentação. Confesso-me indiferente a que a lata do meu atum diga Bom Petisco ou Pingo Doce. O esparguete do Continente coze da mesma maneira e os legumes do Jumbo dão para fazer a mesma salada.  
Em alguns produtos, eu até gosto mais da marca branca. Se me sabe melhor e pago menos, não há como não os escolher. 

Quando mudei de casa, no final do ano, procurei as soluções mais adequadas para os meus consumos domésticos. E, claro, os fornecedores a quem não teria que entregar a alma para poder acender um candeeiro ou tomar um duche quente. 

Quando não tinha cartão de combustível da empresa, procurava as bombas de gasolina com os preços mais baixos. Menos um cêntimo em cada litro levava-me a ir à bomba mais ao lado. É bom sentir que se poupou o que se podia ter poupado. 

Quando viajo, procuro sempre opções low cost. Acatito quilos de roupa numa mala de viagem minúscula para poupar taxas. Nunca compro o seguro. E trago das lojas duty free dos aeroportos os perfumes e os cremes mais baratos para conseguir cortar uns euros no balanço final. 

Gosto portanto de pensar que sou uma consumidora atenta, que esmiúça os seus gastos à procura das escolhas mais racionais. 

E é munida desta convicção que, num piscar de olhos e com meio minuto de hesitação, gasto 150€ num par de sapatos. 

Porque estes sapatos são lindos.
Porque os outros quatro pares que tenho da mesma cor não são bem da mesma cor. O tom é completamente diferente.
E o salto não é bem igual. É melhor.
Estes são os sapatos mais bonitos do universo.
Nunca uns sapatos ficaram tão bem num pé de uma mulher.
TODA A MINHA VIDA quis ter uns sapatos assim e nunca os tinha encontrado.
E a última vez que virei costas e não comprei qualquer coisa, andei semanas esfrangalhada com remorsos. 

Portanto, compro os sapatos, vou de coração cheio para casa, como a minha salada de atum  (marca branca), e espero, feliz, pela meia-noite para pôr a máquina da roupa a lavar. 

Sou tão mulher.






quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sou tão mulher #1

(estaciono e escrevo no telemóvel)

Nunca me sinto mais feminina do que quando chego a um parque de estacionamento e preciso de abrir a porta do carro para tirar o talão da porcaria da máquina.

Claro que antes disto já tentei alcançá-lo pelo vidro (umas três vezes), já dei folga ao cinto (uma vez com direito a vergastada no peito, outra com palavrão a acompanhar), já tirei o cinto e dei balanço (pedindo desculpa pelo retrovisor ao pobre diabo que no carro atrás espera que o meu braço cresça 4 centímetros) e, em todas vezes, falhei miseravelmente.

Se vou à confiança, dou cabo da jante. Se tento ser moderada, fico de braço de fora, dedinhos a agitar no ar e a sangrar da axila.

Sou tão mulher.

(25 minutos depois, acrescento)

Nunca me sinto mais feminina do que quando chego a um parque de estacionamento e preciso de abrir a porta do carro para tirar o talão da porcaria da máquina.

Exceto quando, no regresso ao carro, despejo o conteúdo da carteira no banco do passageiro, desesperada depois de demasiado tempo de procura, unhas escavacadas em tudo o que é chave (mas por que raio transporto eu tantas chaves...?), porque não consigo encontrar a merda do talão para sair do estacionamento.

Sou um cliché. É isso que eu sou.