A partir de que momento é que uma mulher é tão moderna e emancipada que, num espaço comercial sueco, oferece ajuda a um homem de braços carregados de embalagens?
De ontem. A partir de ontem.
Fresca e segura lá seguia esta Mulher de Sonho, numa missão para comprar mais equipamento de apoio para o seu atafulhado composto roupeiro.
Eis que meus pestanudos olhos batem num espécime masculino que se debate, aflito, com sete ou oito artigos de nomes familiares e espetaculares como kalanchoe, försiktig ou tvingen. Entre eles, duas tigelas.
Meu amigo, ninguém espera que um flamingo consiga fazer isso e ele está muito mais tempo ao pé coxinho. Sinceramente.
Então Mulher de Sonho intervém.
Não ia a cavalo, mas faz de conta
(cada um vive os seus momento como quer)
“Precisa de ajuda?”, sussurrei num tom morno e sensual.
Espanto. Uns segundos de silêncio.
“Ah... errr... não, deixe estar, obrigado”, respondeu o macho, claramente embaraçado pelo espetáculo amador de equilibrismo e sobretudo pela inversão dos papéis.
Novos segundos de silêncio, animados pelo tic-tac-ar de uma planta a tentar equilibrar-se numa almofada.
Resignada, encolhi os ombos, sorri e afastei-me.
Enquanto bamboleava as ancas, corredor fora, pensei "Isto não acaba bem".
Ainda consegui ouvir as tigelas a cair.
Menino.

