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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sou tão mulher #6

Como tinha dito aqui, na terça-feira foi dia de revisão do carro.

Como é carro da empresa, e o tipo da marca tem bom gosto, vai ter comigo ao emprego de manhã. Pega na viatura, entrega na oficina, vai buscar à oficina e devolve-mo ao final do dia. Lavado e aspirado.

Impecável, certo?
Errado.

É que o meu carro é armazém de tudo o que possam imaginar e mais um par de botas. E quando digo “mais um par de botas” não achem que é uma força de expressão. Não. Elas estão mesmo lá.

Em casa sou um general da arrumação. No carro, preciso de alugar, e encher, um contentor de entulho para o poder apresentar a outros seres humanos.

No meu carro vive de tudo. Sou a Santa Casa da Tralha e sou um coração mole: se vierem por bem, podem vir. E ficar. Dois anos.

Todos os dias são dias a seguir a um Festival de Verão. Ou a uma manifestação. Há garrafas vazias, garrafas cheias, lenços de papel, areia, sacos, revistas (do Verão anterior), blocos de notas, canetas que não escrevem, canetas que escrevem depois de riscarmos uma folha, canetas que nunca escreveram, talões de parquímetro, moedas (mas nunca suficientes para o parquímetro), pacotes de bolachas, embalagens de pastilhas (vazias), brochuras de publicidade, mapas, uma moeda de plástico para o carrinho do supermercado, sapatos (e mais um par de botas), roupa para a lavandaria, roupa para a costureira, roupa para se estiver frio à noite, o saco do ginásio, a trituradora que avariou e é preciso levar à Worten, dois guarda-chuvas, uma pala prateada para tapar o vidro quando está Sol (nunca uso), um bidão para ir buscar gasóleo se ficar apeada (nunca usei), líquido para os vidros e produto para limpar as jantes (já usei!), uma lanterna, um pano com cara de quem andou na guerra das Coreias e desta vez até óculos para ver filmes em 3D encontrei. Dois pares.

Já me disseram que tudo isto é elevado à décima quando se tem filhos.
Medo.

Eu não sei que raio de fenómeno estranho se passa das portas do meu carro para dentro, mas é como se eu não quisesse saber. Naquele espaço eu sou um adolescente que atira com a roupa para qualquer sítio. Sou uma rebelde. Sou uma desarrumada.

Não é a primeira vez que, ao regressar da oficina, reencontro maquilhagem e ganchos de cabelo há muito perdidos. Deixados no cinzeiro, a brilhar, pelos dedos trémulos com unhas castanhas dos pobres diabos que o acabaram de lavar e aspirar.

Imagino sempre que há uma força de intervenção. Da mesma forma como eu preciso de despejar o carro de véspera (libertando os roedores e separando o lixo) (não no ecoponto, mas em “lixo para deitar fora” e “lixo para voltar a pôr no porta-bagagens”), na oficina deve haver uma reunião de preparação. Há um briefing com fotografias do carro noutras ocasiões, táticas de ataque, pontos de entrada, discussões acesas em que alguém diz “eu acho que não estou preparado” e alguém responde “foi para isto que trabalhaste toda a vida, acredita em ti”, e no fim, ao som de música patriótica, o chefe da oficina faz um discurso inspirador e saem, em grupo, a dar palmadas nas costas uns dos outros, convencidos que conseguirão livrar os meus tapetes de todos os cabelos, migalhas e folhas secas.

Ah. A inocência.

Claro está que mais uma vez o carro chegou impecável. Quase não o reconhecia porque na minha memória vive um carro cinzento mas na verdade ele é preto + pó.

E por dentro? Um brinco! Mas mesmo. Pensava que tinha perdido este brinco para sempre, num outro sítio qualquer, mas aparentemente, antes de sucumbir de exaustão, o tipo que se ofereceu para esta missão de combate à passagem de uma mulher por aquele habitáculo, localizou a peça e deixou-a no banco do passageiro, como recordação da sua passagem por aquele cenário de guerra.

Pequenos e anónimos heróis.

Portanto, o ritual agora é este: repetir coméquépossível acumular tanta tralha e enganar-me, dizendo que irei lavar e aspirar o carro regularmente. E daqui a quinze dias está tudo igual.

Em casa, uma princesa.
No carro, um troll.