Tenho várias amigas que não gostam de fazer sexo oral. Gostam de receber (algumas também não gostam, mas sobre isso falamos noutro dia) mas não gostam de fazer. Não fazem. Ponto.
Não gostam do aspeto do sexo masculino. Acham “feio”. Não gostam do cheiro. Não gostam do sabor. Não gostam de eventuais fluídos. Não gostam da pele. Não gostam dos pelos. Muitas, a maior parte, diz não gostar da “submissão”. De se sentirem “inferiorizadas”, “rebaixadas”.
Faço questão de abrir aspas em palavras que são citações diretas, e que estão tão longe da minha opinião que quero destacar isso mesmo.
Sei de mulheres que estão ou que passaram anos - muitos anos - em relacionamentos sérios, namoros e mesmo casamentos, relações em que há, ou em que havia, muito amor e respeito mútuo, e que ainda assim se recusam a fazer sexo oral aos seus homens. Mulheres urbanas, inteligentes, desempoeiradas, sexualmente libertas (no que diz respeito aos restantes pratos da ementa), mas que acham lamentável que alguém naquela relação gostasse que o seu órgão sexual fosse lambido e chupado e tratado como o importante centro de prazer que é.
Eu não entendo estas mulheres.
Irei tentar desconstruir a questão, tomando como referência a pessoa de quem se gosta. Não vamos generalizar para o felácio universal, do encontro ocasional. Não. Falemos apenas do namorado, do marido, do companheiro.
Compreendo que se estabeleçam níveis mínimos de higiene e de embelezamento, se isso não estiver garantido. Não estou a ver um homem que, mediante a afirmação “se estiver lavadinho, eu meto-o na boca” ou “vamos lá a controlar a pequena Amazónia púbica que aí tens, ou vou passar os próximos minutos a catar a língua e a ter vómitos secos”, não corresse para a casa-de-banho de cauda a abanar. Experimentem trocar sexo oral pela lavagem da loiça do jantar. Ou a do carro. Até isso me parece que funcionaria. Por isso, tiremos esse argumento do caminho. Se a questão é essa, é ultrapassável em menos de nada.
Se acham que é feio, cresçam! Em primeiro lugar, é tão feio como um cotovelo ou tão fofinho como uma barriga. É uma parte do corpo. Por si só, tem um valor estético relativo. Presa à pessoa de quem gostam, é suposto ter a atenção que merece. Peguem lá num espelho, sentem-se num bidé e olhem para os vossos pipis. Hã, que tal?
Se são os fluídos, podem sempre usar um preservativo. Plastifiquem a coisa e libertem-se da questão.
Senhores, não será bem o mesmo, bem sei, mas antes assim do que nada, certo?
Compreendo que os sabores e os odores possam incomodar mais umas pessoas do que outras. Eu, por exemplo, não posso ver ninguém a vomitar sem correr a juntar-me a ela. Sou uma enojadinha invejosa. Mas esta é uma boa solução. Para as corajosas, até há preservativos com sabores (sim, corajosas, porque aquilo não sabe a nenhum morango que eu alguma vez tenha comido).
E depois, vem a parte mais complexa: a da “submissão”. Esta parece ser a mais difícil de contornar. Não é plastificável, aparável ou perfumável. Mas vamos lá, pensem comigo: o pénis do vosso homem está dentro da vossa boca. Aquele pedaço de carne que os faz uivar de dor mediante a mais inofensiva das pancadas está na vossa boca. As jóias da coroa. O abono de família. Tudo na vossa boca. Na vossa boca há dentes (na maior parte dos casos) (se não os tem, veja os parágrafos acima e façafavor de ir ter com o seu homem) (já!). A dentição humana é constituída por 32 dentes. Alguns verbos que se podem aplicar ao papel dos dentes são: dilacerar, perfurar, cortar, esmagar e triturar. Tudo isto à distância de centímetros da zona mais sensível do corpo masculino. E falam em “submissão”??
Estarei a ver mal, ou um homem sujeitar-se a uma valente dentada ou a um puxão a seco de uma mulher mais afoita, destreinada ou pouco experiente, é que é a verdadeira submissão? Quando está (literalmente) nas nossas mãos, o prazer de alguém, como é que poderemos estar a ser submissas? Quando controlamos o ritmo e a intensidade do prazer de outra pessoa, simplesmente pela cadência ou velocidade com que lhe tocamos, como não sermos nós a ter total controlo? Como?
Procuro não julgar e aceitar a sexualidade como cada um a vive. Quando falo com amigas sobre este tema, tento compreender qual o ponto de vista de cada uma e de que forma poderia a questão ser ultrapassada. Não tanto pelos homens cujas pilas não estão a ser chupadas, mas sobretudo pelas mulheres que, presas a preconceitos idiotas, vivem intimidades menos completas e relacionamento menos felizes.
Porque o sexo oral faz um homem feliz.
Acreditem. Eu sei.