É sempre um momento de alegria e pânico quando colegas de trabalho levam bebés ainda frescos a conhecer o escritório.
Dois ou três meses depois do nascimento é quase matemático. Ovo ou carrinho, sacos e bolsas, uma girafa de peluche, olheiras até ao umbigo e o ar mais feliz do mundo por estar novamente entre adultos (também pode ser histeria nervosa, da privação de sono).
Normalmente os corredores enchem-se de mulheres, tudo debruçado para espreitar a nova vida, num chilrear colorido e agudo, audível do outro lado da estrada.
É um momento de alegria porque estivemos sem nos ver alguns meses. Vamos acompanhando a gravidez (nuns casos com maior proximidade, noutros só a evolução das barrigas e diâmetro dos tornozelos), falando sobre as várias etapas, as ecografias, os testes, as expectativas, e agora, finalmente, ali está o produto de tanta agitação e bacalhau com smarties às três da manhã.
Normalmente são as mães de primeira apanha que correm a partilhar o fruto do seu ventre. Quando são segundos ou terceiros filhos só os conhecemos na festa de Natal da empresa. Ou nas férias da Páscoa, no primeiro ano da escola.
Como não tenho filhos, sou sempre a escolhida para pegar na criança. Insistem que “tenho que treinar”. E é aí que entra o pânico.
A sério? Querem MESMO que seja alguém que tem tanto jeito para pegar em bebés como para dançar o can-can depois de três copos de sangria, que segure na coisa mais preciosa da vossa vida? Mesmo? É que para mim todos os bebés são feitos de sabão. Sinto que, quanto mais os apertar - para garantir que chegam à idade de andar (e com essa capacidade intacta) -, mais eles vão sair disparados contra a grelha do ar condicionado no teto.
Quando me passam a criança, os meus braços avariam automaticamente. Perdem a capacidade de dobrar pelo cotovelo. Fico com duas pás agarradas às omoplatas, tesas e paralelas, e um puto com cara de espanto, pendurado pelos sovacos, lá na ponta.
Garanto sempre que a criança é mantida a uma distância que assegure que: a) não vai bolsar para a minha boca e b) se a deixar cair ainda consigo ganhar alguma distância e acusar outra pessoa.
Enquanto faço de cabide humano, vou choramingando que não sei fazer aquilo e que peloamordedeus alguém a agarre antes que eu me desgrace. Mas por mais que as mães digam que não há maior amor no mundo, parece que secretamente querem que eu as livre daquela responsabilidade. Ocupadas a falar com outras mães de temas tão absorventes como gretas nos mamilos, ignoram os meus apelos cada vez mais desesperados.
É só quando o bebé, exasperado de tanto desconforto axilar, abre a goela ou apresenta argumentos de peso (ao nível dos sólidos), que alguém nos acode.
Temo que da próxima vez que me passarem um recém-nascido para as mãos, me sentirei tentada a soltar discretamente um gás.
Sou uma senhora, mas não funciono bem com este tipo de pressão.
Inteligente, bonita, bem humorada, culta, aventureira, amiga, afetuosa, desinibida. Se não fosse ter mau feitio e nenhum talento para conversa de circunstância, dir-se-ia que sou uma Mulher de Sonho. Mesmo.
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quinta-feira, 27 de março de 2014
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