No dia em que a ave do momento é a águia e que o amor da moda é o amor ao clube;
agora que os beijos são dados aos cachecóis, às bandeiras, a estátuas cobertas de excrementos secos e a criancinhas levantadas em cavalitas por homens maduros em lágrimas;
hoje, depois de milhares de machos de bigodes fartos terem declararado em público o seu amor eterno ao Benfica, quero trazer-vos uma perspetiva diferente dos afetos.
Desde que mudei de casa, e comecei a viver num ambiente mais urbano, que fiquei alerta para este movimento amoroso. Já o tinha registado, aqui e ali, numa esplanada, num jardim, num passeio pelo Chiado.
Mas - condicionada pelos rótulos comuns e depreciativos - admito que demorei a reconhecer devidamente a natureza poética e sensível destas criaturas afetuosas. Destes corações apaixonados. Destes D. Juans alados.
Dos pombos.
Chamam-lhes ratos com asas. Eu digo que são cupidos com bicos.
Seja Primavera (e ande tudo num frenesim erótico), seja Inverno (e metade da vida animal esteja na toca a tiritar de frio), os pombos macho querem sempre praticar o amor.
O pombo macho é um resiliente. Ele persegue a (sua) fêmea, arrulhando apaixonadamente. Dando voltas sobre si próprio. Tufando as suas penas. Arrulhando novamente. Rodando para o outro lado.
Persegue-a de coração no bico. Todo ele emoção. Seguro que a conseguirá convencer que nenhum ovo sairá tão viçoso como o que ele pode ajudar a produzir. Nenhuma ninhada estará completa sem a sua masculinidade envolvida. Ele e a sua semente são tudo o que ela precisa e deseja. E com esta certeza a persegue, cheio de boas/más intenções. Todo tufado.
“Queres f*der? Queres f*oder? Olha p’ra mim a rodar! Viste? Viste? Olha agora a rodar para o outro lado! Não sou espetacular? E viste como fico enorme? Diz lá, a sério, não sou o maior que já viste? Queres f*der? Queres f*der?”
Vocês não ouvem esta a conversa enquanto o jogo de sedução dos pombos decorre? Eu oiço. É isto que eles dizem. Tenho a certeza.
Mas apesar da retórica e das penas e do bailado, na maioria dos casos, a fêmea parece mais interessada em comer uma beata do que em ceder aos instintos predatórios deste Doutor do Amor. As fêmeas ignoram os avanços como quem passa por um mendigo andrajoso e o pombo macho resiste bem mais do que acharíamos possível. Ele mantém o ritual apesar do desprezo e isso toca-me o coração.
No entanto, sejamos claros: são amorosos mas são devassos. Ao contrário dos seus primos pinguins, que acasalam para a vida, os pombos (cujo objetivo é acasalar TODA a vida), apesar dos peitinhos cheios de emoção, são capazes de lançar charme com igual intensidade à fêmea A e depois à B e depois à C e assim por diante, até nZ. Amam-nas muito e querem-nas tanto, mas confrontados com o óbvio, viram a sua baioneta do amor para a miúda (pomba) do lado.
Eu acho que não sem um golpe de tristeza. Mas isto sou eu, que no fundo sou uma romântica.
Neste dia de águias de peito cheio, prestemos pois a nossa homenagem a esta ave sensível que pouco mais deseja do que pôr a tocar um Barry White, baixar as luzes, servir um copo de vinho e passar todo um serão a namorar. Sem grelhas de táxis na testa.
Papoilas urbanas de corações saltitantes.
Pinga-amores dos parapeitos.
Os pombos.
Os pombos.
Inteligente, bonita, bem humorada, culta, aventureira, amiga, afetuosa, desinibida. Se não fosse ter mau feitio e nenhum talento para conversa de circunstância, dir-se-ia que sou uma Mulher de Sonho. Mesmo.
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