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terça-feira, 8 de abril de 2014

Os contrariadores

Não entendo as pessoas que teimam em contrariar quem gostam.

Tenho uma tia que é assim. Quando, em miúda, ia para casa dela, fazia questão de me apresentar cereais muesli logo pela manhã. De me servir refeições consecutivas de iscas (pausa para vómito psicológico). De me propor lanches de toranja.

Eu era uma criança (às vezes ainda sou) e não queria nada daquilo. Eu queria era coisas que fizessem as minhas papilas gustativas dar mortais à retaguarda.

Eu não tinha dois anos. Ali não era a minha casa. Não era preciso haver as mesmas regras.

E não estou a dizer que me deveria ter enchido de gomas e de chapéus de chuva de chocolate (a menos que quisesse que eu a amasse incondicionalmente). Mas no mínimo, intervalar coisas boas que sabiam mal, com coisas más que sabiam bem.

O que conseguia esta minha tia castradora era ter em casa uma sobrinha sempre de ouvido espetado para o telefone. De cada vez que tocava, só queria que fosse a minha mãe. A dizer que estava à porta, montada num cavalo branco alado que nos levasse a comer esparguete à bolonhesa.

Não entendia por que razão parecia estar a ser castigada. Mas comia e calava e olhava para o relógio a contar os minutos de masmorra que ainda me restavam.

Assim que tive idade para que me deixassem ter opinião, nunca mais lá fiz uma refeição. Chá, no máximo e ainda assim nunca caí no erro de lhe dizer qual preferia (nunca mais o bebia). Passei a visitar e a fugir o mais depressa que conseguisse. Nunca fiando, não fosse o mundo cá fora acabar e eu ficar bunkerizada naquela casa, com metade dos produtos do Celeiro.

Algumas pessoas têm uma atitude semelhante com a pessoa de quem gostam.

Se sabem que o outro gosta disto ou daquilo, evitam dar ou fazer isto ou aquilo.
Se o outro lhes diz que gostaria de ter mais isto ou mais aquilo, ignoram a importância do isto ou do aquilo.
Quando o outro lhes diz, “então, bom dia e um queijo, porque está ali outra pessoa com duas sacas disto e daquilo”, desesperaram e descabelam-se.

Não entendia e continuo sem entender.

Eu sou sempre pela comunicação. Pelo diálogo.
Se algo não está bem, ou se está a mais ou a menos, é dizer-se.
Se algo é dito e repetido, talvez esteja na altura de se lhe dar importância.

Por que razão se pode presumir que privar alguém de algo que o faz feliz, é cativante? Por que raio se quereria fazê-lo? Estas formas de pequeno poder, de presumido ascendente sobre a felicidade de alguém, fazem-me espécie.

Temos encaixe para contrariedades. Podemos achar graça a um coice pontual. Mas alguém quererá viver muito tempo com um contrariador?


Quando as palavras não chegam, haverá caminho?