Se era para me fazer sentir
Que andei - orgulhosa - de telemóvel Alcatel. E antes disso, de cartões de telefone. Para usar nas cabines. Só quando não estava em casa, com o meu telefone fixo. Mesmo fixo, na sala.
Que sonhava ter umas calças de ganga da Uniform. E um casaco de penas da Duffy. E uma mochila Monte Campo.
Que ouvia a Rádio Cidade, que era animada por brasileiros. Numa altura em que o António Sala ainda tinha bigode. E a amiga Olga não parecia que tinha passado por um túnel de vento.
Que na escola se falava de telenovelas. De telenovela. Porque só havia uma de cada vez e todos a víamos. Havia cadernetas de cromos e tudo.
Que as televisões (ou os televisores) tinham uma bossa atrás. E uma antena, que manuseávamos com pinças, para garantir que não havia um fantasma verde por cima do Pedro Mourinho, no Caderno Diário.
Quando todos tínhamos um cartão do clube de vídeo. E um rebobinador.
Se era para me fazer sentir
Monstrozinhos.
Era já uma colher de óleo de fígado de bacalhau pela goela abaixo.