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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A vida é um jogo

Uma das grandes vantagens que tenho encontrado em estar viva é aprender a viver.
Parece óbvio? Não é.

Todos começamos nessa premissa.

Aprendemos os básicos: a chorar para nos darem de comer, a chorar porque não queremos cocó na fralda, a chorar porque nos doem as entranhas ou porque temos aliens albinos a trespassarem-nos as gengivas. A chorar para nos darem atenção.

Depois subimos um nível e queremos aprender os nomes das coisas para que nos possam ser dadas rapidamente. E saber dizê-las é espetacular. Ou gritá-las, esponjados no chão do corredor das gomas do Pingo Doce. Percebemos que se conseguirmos andar, nem precisamos da boleia de colos ou de ovos ou de carrinhos. E podemos fugir da mãe e do pai e perseguir pombos, só porque é giro vê-los lançados em bando no ar. Até ao dia em que levamos com um excremento no nariz. E choramos, porque já deixámos claro que não queremos conviver com dejetos. Sobretudo com os alheios.

Aprendemos que o mundo é melhor quando podemos passar horas no quarto a ler. Ou a somar os números da data de nascimento do colega de turma de quem gostamos. Porque vimos numa revista que se for igual a x ele será nosso para sempre.

Aprendemos, de coração partido, que sabemos amar. E depois de sarado, aprendemos que afinal não são só palavras - o tempo cura mesmo.

Um dia somos quase crescidos e sabemos conduzir uma máquina com combustões e circuitos que não compreendemos mas que aprendemos a dominar. Uns melhor do que outros.

Saímos da universidade cheios de ganas, porque aprendemos coisas sobre coisas. E depois temos um emprego e descobrimos que afinal ainda há tanto para aprender.

Apaixonamo-nos uma e outra vez e aprendemos a fazer caminhos em paralelo ou a encontrar estradas alternativas, quando à principal se lhe acaba o alcatrão. Com sorte, aprendemos a comunicar, a ouvir e a saber quando estar calados.
Aprendemos a aprender os outros.

Pelo caminho, os mais atentos aprendem a viver. Outros, persistem nos erros. E estão apenas vivos.

Os meus anos deixaram que aprendesse que importante, mesmo importante, é estar feliz.
Estar feliz. Não ser feliz, porque ser feliz parece tão mais permanente e “esta insatisfação” - como cantava Variações - ainda não a consegui dominar.

Mas aprendi que estar feliz é estar com os que gosto. É ler. É escrever. É ouvir música. É viajar. É mergulhar. É o Sol, e a praia, e as gaivotas que se juntam à beira da água quando o horizonte engole o dia e se veste uma camisola por cima da pele com sal e se come um petisco num bar de praia. É o toque de quem nos sabe tocar. É um abraço. Ou muitos abraços. É uma conversa com alguém que nos entende. E que nos faz rir. É o silêncio quando se está em harmonia. Ser feliz é dar a mão. É ter a família com saúde. É correr. É o ronronar de um gato e o amor de um cão. É comer (muito) bem. E depois dormitar à sombra. É Pessoa, é Saramago, é Borges, é O'Neill, é a mensagem ou a melodia ou a enormidade de canções que se nos entranham.

O que os meus anos deixaram que aprendesse é que o tempo é pequeno para estar longe do que me faz feliz. Que vale a pena correr e sentir e arriscar. E dar tiros no escuro. Porque um dia vamos aprender que a vida passou demasiado depressa e que estar vivo é diferente de viver.

Por tudo isto, talvez no Domingo, arrisque, e vá ao estádio ver a bola.